Turismo pet friendly: como a Rede dos Sonhos se tornou referência e recebeu mais de 26 mil pets em 2025

Cinco hotéis, quatro refeições por dia, natureza de sobra, excelência na hospedagem e uma experiência boa para cachorro — mas também para gatos, aves e praticamente qualquer animal de estimação. O turismo pet friendly fez o check-in na Rede dos Sonhos, a maior rede de hotéis-fazenda do Brasil, e nunca mais saiu. O que começou anos atrás como uma adaptação de um quarto para um hóspede cego, que viajava com seu cão-guia, se tornou diferencial competitivo e marca registrada.

De lá para cá, esse segmento só cresceu. Hoje, nem é mais considerado tendência de mercado — é realidade mesmo. Só para se ter uma ideia, em 2023, cerca de 80 mil pets viajaram de avião pelo Brasil; em 2025, a companhia aérea Azul, sozinha, transportou mais de 70 mil. Esse cenário, é claro, interfere na reserva da hospedagem. Um levantamento recente da Booking.com mostrou que 55% dos brasileiros que viajaram com seus bichinhos no ano passado escolheram um hotel especificamente por ele permitir animais de estimação.

Parte desse novo comportamento do consumidor tem a ver com um fenômeno contemporâneo: a humanização dos pets. Eles migraram das garagens e quintais para dentro de casa e assumiram o papel de filhos e filhas para muitos tutores, consolidando sua posição como membros da família. Logo, é natural que tanta gente prefira não deixá-los para trás ao planejar um roteiro de férias ou uma simples escapada aos finais de semana.

Rede dos Sonhos e turismo pet friendly: por que essa dupla dá tão certo?

Para a Rede dos Sonhos, quanto mais pets, melhor. Afinal, são eles que movem o projeto “Seu pet é sempre bem-vindo” e que ajudam a ditar o ritmo nos cinco complexos hoteleiros do grupo: Hotel Fazenda Campo dos Sonhos, Hotel Fazenda Colina dos Sonhos, Hotel Fazenda Parque dos Sonhos, Hotel Fazenda Portal dos Sonhos e Hotel Fazenda Terra dos Sonhos.

Com exceção do Terra dos Sonhos, localizado no município de Bueno Brandão (MG), todos os outros estão em Socorro (SP). Como ambos os destinos são famosos pelo ecoturismo e turismo de aventura, todos os hóspedes (pets também!) são incentivados a curtir a natureza. Pedalinho, caiaque, boia-cross, passeios de trator, trole (tipo de charrete) e carrinho elétrico, triciclo, trilhas e até visitas a cachoeiras são exemplos de atividades que podem ser feitas na companhia dos animais.

Dado o boom que o turismo pet friendly vem experimentando — o número de pets recebidos pela Rede dos Sonhos saltou de 1.639, em 2008, para 26.708 em 2025 —, convidamos José Fernandes Franco, diretor e fundador da rede, para uma entrevista exclusiva. Ele forneceu mais detalhes sobre o projeto “Seu pet é sempre bem-vindo”, contou como tudo começou e explicou como é possível proporcionar uma experiência diferenciada para todo mundo, sejam os hóspedes humanos ou não. Confira a conversa na íntegra!

Entrevista com José Fernandes Franco, diretor da Rede dos Sonhos

Retrato de José Fernandes, diretor da Rede dos Sonhos, em ambiente externo com fundo de folhagens verdes iluminadas pelo sol. Ele é um homem de meia-idade, cabelos grisalhos curtos, sorri levemente e veste uma camisa polo de manga curta. Ele está apoiado com os braços cruzados sobre uma mureta de madeira rústica escura, olhando para a câmera.
José Fernandes Franco, diretor e proprietário da Rede dos Sonhos, reconhece que a gestão operacional é um dos principais desafios em receber hóspedes com pets, mas parece ter encontrado a fórmula do sucesso — foram mais de 26 mil animais de estimação hospedados no ano passado | Crédito: Divulgação/Rede dos Sonhos

1. Como se deu a ideia de criar o projeto “Seu pet é sempre bem-vindo”? Quando ele nasceu?

O projeto nasceu a partir da parceria que foi feita com o Ministério do Turismo em 2005, visando adaptar atividades de aventura para pessoas com deficiência [programa “Aventureiros Especiais”]. No grupo de voluntários havia um deficiente visual com cão-guia, e ele sugeriu que no chalé em que ele estivesse hospedado fosse feita uma adaptação, de modo que o cão-guia pudesse, através de uma porta, acessar um canil na parte de fora da acomodação.

Dessa forma, fizemos um primeiro chalé com canil acoplado para atender a esse tipo de deficiência. Todos os hóspedes que passaram a conhecer esse chalé queriam, na sua próxima hospedagem, ficar nele com o seu cão. Devido ao aumento da procura por pessoas não cegas, resolvemos adaptar outros chalés com canil acoplado.

A partir de 2007 verificamos que muitas famílias gostariam de se hospedar com seu pet em nosso hotel e ampliamos o número de chalés adaptados, chegando em 2010 a 20 unidades com canil acoplado. Nessa época, vimos que existia um mercado de hospedagem voltado para receber pets e passamos a ter mais de 10% da ocupação com esse público. De 2020 em diante, com a pandemia, a quantidade de cães no hotel ficou tão expressiva que criamos critérios específicos para esse segmento.

Há mais de uma década iniciamos uma preparação para receber hóspedes acompanhados de cães-guia e percebemos que a hotelaria brasileira ainda oferecia poucas opções realmente estruturadas para esse público. Ao mesmo tempo, identificamos uma mudança importante no comportamento do consumidor: os animais de estimação passaram a ocupar um papel cada vez mais relevante dentro da família, tornando-se natural incluí-los também nas viagens.

Com essa percepção, ampliamos o conceito e desenvolvemos o projeto “Seu pet é sempre bem-vindo”. Hoje, ele faz parte da identidade da Rede dos Sonhos e está totalmente integrado ao nosso modelo de hospitalidade, que busca proporcionar experiências inclusivas para toda a família, incluindo os animais de estimação.

Graças ao sucesso desse trabalho, logo após a pandemia, unidos com a cidade de Socorro, foi criado um selo municipal para empresas pet friendly e a Rede dos Sonhos teve seus cinco hotéis entre os primeiros a receber esse selo.

2. Todas as acomodações aceitam pets ou há categorias específicas voltadas para esse público?

Na Rede dos Sonhos, todas as acomodações estão preparadas para receber hóspedes acompanhados de seus animais de estimação. Mais de 50% das acomodações foram adaptadas com canil acoplado. Essa decisão faz parte da nossa filosofia de hospitalidade e evita a segregação entre unidades “pet” e “não pet”.

Naturalmente, mantemos protocolos operacionais específicos para garantir a limpeza, a manutenção e a convivência harmoniosa entre todos os hóspedes. Acreditamos que ser pet friendly não significa apenas permitir a entrada de animais, mas desenvolver uma cultura organizacional baseada no acolhimento, na responsabilidade e na qualidade dos serviços prestados.

3. Para que um hotel seja verdadeiramente pet friendly, é preciso repensar vários aspectos do empreendimento. Quais são as principais mudanças estruturais e de materiais (como tipos de pisos, tecidos de estofados etc.) que devem ser levadas em conta nesse processo?

Montagem de duas fotos mostrando o sistema de canil integrado de um chalé. Na imagem da esquerda, vista da varanda externa: um cachorro está dentro de um espaço cercado por tela, adjacente à parede de tijolos do chalé. Na imagem da direita, vista de dentro do quarto: o mesmo cachorro aparece em pé sobre um colchonete azul, dentro de um nicho com fechamento de vidro, ao lado da cama. O nicho possui uma abertura que permite a passagem e o acesso direto do cão para o interior do quarto.
Exemplos de chalés com canis acoplados, acomodações da Rede dos Sonhos que entregam segurança e conforto aos bichinhos | Crédito: Divulgação/Rede dos Sonhos

Aceitar animais é relativamente simples; tornar-se verdadeiramente pet friendly exige planejamento, investimento e mudança de cultura organizacional.

Na parte estrutural, criamos os canis acoplados nos chalés, priorizamos pisos resistentes, antiderrapantes e de fácil higienização, áreas verdes amplas, locais destinados ao descarte adequado de resíduos, pontos de hidratação, espaços seguros para circulação e ambientes que permitam a convivência harmoniosa entre hóspedes com e sem pets. Os visitantes ainda têm a possibilidade de deixar seu pet em um local criado especificamente para ele, caso não queiram levá-lo durante a atividade.

Também avaliamos constantemente os materiais utilizados em estofados, revestimentos e mobiliário, buscando alternativas mais duráveis e que facilitem os processos de limpeza. No entanto, o maior investimento está nas pessoas. Toda a equipe recebe treinamento específico para compreender o comportamento dos animais, orientar os tutores e atuar de forma acolhedora e segura.

4. Existe um desgaste natural das instalações com a presença dos animais. Como equilibrar isso, sobretudo nos quartos e nas áreas externas, com uma experiência de excelência para o hóspede, principalmente aqueles que não têm pets?

O desgaste faz parte da operação de qualquer empreendimento hoteleiro e deve ser administrado por meio de manutenção preventiva, monitoramento constante e renovação periódica das instalações.

Nosso modelo de hotel-fazenda contribui bastante para minimizar impactos, pois os animais passam grande parte do tempo em atividades ao ar livre, caminhadas e espaços de lazer, reduzindo significativamente o tempo de permanência dentro das acomodações. Além disso, trabalhamos fortemente na conscientização dos tutores sobre guarda responsável, utilização correta dos espaços e respeito aos demais hóspedes.

5. A rotina das equipes de governança e limpeza muda drasticamente com a presença de pets. Quais protocolos específicos de higienização profunda vocês criaram para garantir que o quarto fique impecável para o próximo hóspede, mesmo que ele não tenha animais?

As acomodações ocupadas por hóspedes com pets seguem um protocolo específico de governança. Após o checkout, realizamos uma limpeza ampliada, que contempla aspiração completa para remoção de pelos, higienização de colchões, estofados e cortinas quando necessário e limpeza detalhada de rodapés, pisos e superfícies, além da utilização de produtos que eliminam odores sem deixar resíduos ou fragrâncias excessivas.

Também adotamos processos voltados à redução de alérgenos, garantindo que o próximo hóspede encontre o apartamento em condições equivalentes às de qualquer outra acomodação. O controle de qualidade é realizado antes da liberação do quarto, assegurando o padrão de excelência da Rede dos Sonhos.

6. O enxoval dos quartos é para uso exclusivo das pessoas, mas e os hóspedes que têm o hábito de compartilhar a cama com o bichinho? Essa prática é proibida nos hotéis da Rede dos Sonhos? Se sim, como é possível monitorar isso?

Foto em plano médio de uma seção de loja de presentes com produtos para animais de estimação. Sobre uma prateleira de madeira escura e sob uma parede de tijolos à vista, há uma placa suspensa com a frase "CANTINHO PET FRIENDLY" e fotos de cães. O espaço está repleto de itens coloridos, incluindo camas para cães de vários tecidos e estampas, brinquedos de pelúcia (como uma grande estrela amarela), bolinhas coloridas em uma rede, roupinhas penduradas e dobradas em prateleiras inferiores, guias e estatuetas decorativas de cães. O ambiente é acolhedor e cheio de detalhes, ilustrando a oferta de produtos para hóspedes com animais na Rede dos Sonhos.
É possível comprar itens e acessórios exclusivos para pets nas lojas dos complexos hoteleiros | Crédito: Divulgação/Rede dos Sonhos

Nossa orientação é para que os animais utilizem suas próprias camas ou as acomodações disponibilizadas pelo hotel. Entretanto, compreendemos que muitas famílias possuem uma relação muito próxima com seus animais e não adotamos uma postura policial em relação a esse comportamento. Nosso foco está na educação do hóspede, e não na fiscalização.

Independentemente disso, todo o enxoval passa pelos protocolos convencionais de lavanderia industrial, com higienização completa entre uma hospedagem e outra, assegurando os padrões sanitários exigidos pela hotelaria.

7. Como funciona o treinamento das camareiras e auxiliares para lidar com a presença do pet no quarto? Existe algum protocolo de segurança ou de “não perturbe” específico para quando o animal é deixado sozinho pelo tutor?

As equipes de governança recebem treinamentos específicos sobre comportamento animal, leitura de sinais de estresse, abordagem segura e procedimentos operacionais. Como medida de segurança, nossos colaboradores não entram em acomodações em que o animal esteja desacompanhado do tutor. Nesses casos, a limpeza é reagendada para outro momento. Esse protocolo protege tanto o colaborador quanto o próprio animal, evitando situações de ansiedade, medo ou comportamento defensivo.

8. A convivência entre hóspedes com pets e hóspedes que buscam silêncio ou têm alergias pode gerar atritos. Como os hotéis da Rede dos Sonhos lidam com isso?

Esse equilíbrio faz parte da gestão da hospitalidade. Sempre que possível, organizamos a distribuição das acomodações considerando o perfil dos hóspedes e orientamos os tutores sobre regras de convivência, circulação nas áreas comuns e controle dos animais.

Como nossos hotéis possuem áreas amplas e contato intenso com a natureza, a dispersão dos hóspedes reduz significativamente os conflitos. Além disso, os protocolos rigorosos de limpeza contribuem para minimizar qualquer impacto relacionado a pelos ou alérgenos. Nosso objetivo é que todos tenham uma excelente experiência, estejam ou não viajando com animais.

9. Na sua visão, quais são os maiores gargalos operacionais que o turismo pet friendly traz para o dia a dia de um hotel?

O principal desafio não está na infraestrutura, mas na gestão operacional. É necessário investir continuamente na capacitação das equipes, revisar protocolos de governança, adaptar processos de manutenção, reforçar a comunicação com os hóspedes e promover educação sobre posse responsável.

Outro aspecto importante é acompanhar a evolução do mercado. O perfil dos tutores mudou muito nos últimos anos, e as expectativas em relação aos serviços também aumentaram. Hoje, não basta permitir a entrada do animal; é preciso oferecer uma experiência integrada, segura e acolhedora.

10. Qual é a proporção de hóspedes da Rede dos Sonhos que se hospedam com bichinhos de estimação?

Atualmente, aproximadamente 20% dos nossos hóspedes viajam com seus animais de estimação — no ano de 2025, recebemos mais de 25 mil pets na Rede dos Sonhos. Esse percentual demonstra como o turismo pet friendly deixou de ser um nicho para se tornar uma realidade consolidada dentro da hotelaria brasileira. Observamos um crescimento contínuo dessa demanda, especialmente entre famílias que consideram seus pets parte integrante da experiência de viagem.

11. Os hotéis da Rede dos Sonhos têm parcerias com clínicas veterinárias para o caso de emergências médicas?

Sim. Mantemos uma rede de apoio com clínicas veterinárias da região para atendimentos de emergência e orientamos os hóspedes sempre que necessário. Embora ocorrências sejam pouco frequentes, entendemos que esse suporte faz parte da responsabilidade de um empreendimento que recebe diariamente animais de diferentes portes e perfis.

12. Por falar nisso, são aceitos animais de todos os portes?

Sim. Recebemos animais de pequeno, médio e grande portes. Nossa análise está muito mais relacionada ao comportamento do animal, à responsabilidade do tutor e às condições de convivência do que propriamente ao porte. Essa política amplia o acesso e reforça nosso compromisso com uma hospitalidade verdadeiramente inclusiva.

13. Vocês oferecem amenidades ou kits de boas-vindas para hóspedes que viajam com animais?

Foto em close de um dispensador de saquinhos plásticos brancos para recolhimento de fezes de cães, fixado em uma mureta de tijolos. Acima dele, uma placa azul e branca traz o aviso "Saquinhos cata caca - Por favor, recolha as fezes do seu cão", com a identidade visual de área pet friendly do hotel Campo dos Sonhos.
Para tornar a estada mais cômoda para quem viaja com animais, há saquinhos de coleta espalhados pelos hotéis | Crédito: Divulgação/Rede dos Sonhos

Disponibilizamos itens de apoio, como recipientes para água e alimentação. Há kits “cata-caca” espalhados pelo hotel e temos em nossas lojas um Cantinho Pet, com produtos voltados para esse segmento. Também fornecemos orientações sobre passeios, trilhas, espaços permitidos e boas práticas durante a hospedagem. Mais do que distribuir brindes, buscamos proporcionar uma experiência acolhedora para toda a família, incluindo o pet.

14. A Rede dos Sonhos pede que pessoas que queiram se hospedar com aves ou espécies exóticas informem a recepção com antecedência para avaliação. Vocês exigem documentação para identificação do animal, seja no momento da reserva ou no check-in, para atestar que ele está “legalizado” com o dono?

Sim. Solicitamos que esses casos sejam informados previamente durante a reserva para que possamos realizar uma avaliação individual. Dependendo da espécie, exigimos a documentação prevista na legislação ambiental brasileira, garantindo que o animal tenha origem legal e que sua permanência seja compatível com as condições de segurança, bem-estar e preservação ambiental.

Mapeamento do turismo pet friendly: uma iniciativa do MTur

Existe um estudo em aberto, que está sendo conduzido pelo Ministério do Turismo, pela UNESCO e por uma consultoria especializada, que pretende entender quão estruturado está o turismo pet friendly no Brasil. O intuito é ouvir tutores de animais de estimação, profissionais do setor de turismo e gestores públicos. As informações coletadas servirão como base para o desenho de estratégias e políticas que fortaleçam ainda mais esse mercado. Para responder à pesquisa online, é só clicar aqui. A participação é gratuita. Porém, atenção ao prazo: a enquete será encerrada em 31/7/2026.

Assim como o MTur, nós também queremos ouvir você: a consolidação do turismo pet friendly já é perceptível no seu dia a dia? Você acredita que os hotéis, de modo geral, estão preparados para atender esse público sem escorregar na experiência com quem prefere viajar sem animais de estimação? Deixe sua opinião abaixo!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi