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Exemplos de práticas de sustentabilidade em hotéis: Compras no centro da estratégia ESG

Quando a equipe de Compras fecha o pedido de 500 jogos de lençóis ou de centenas de frascos de amenities, as preocupações quase sempre seguem o mesmo protocolo: preço unitário, certificado de qualidade, prazo de entrega e margem de desconto. Porém, com a pressão do mercado pela incorporação de práticas de sustentabilidade em hotéis, o jeito “convencional” de fazer as coisas está ganhando novos contornos, sobretudo porque modelos de negócio geram gargalos e custos adicionais e desvalorizam a marca.

Não seria exagero afirmar que o ideal é desenhar a aquisição já sabendo, no dia do pedido, qual será o destino daquele material quando sua vida útil terminar. Afinal, a responsabilidade sobre o produto se estende até o seu descarte — ou pelo menos é assim que deveria ser, considerando que a depreciação dos insumos é inevitável. O desafio não está tanto no “jogar fora”, mas na necessidade de uma mudança de mentalidade: e se o “lixo” da governança ou da cozinha fosse visto como matéria-prima para a própria operação ou para a comunidade do entorno?

Upcycling: o valor de toalhas e lençóis velhos

Pense no trajeto tradicional de um lençol de hotel: ele chega branquinho, macio e engomado, passa por dezenas ou centenas de lavagens industriais, sofre o desgaste natural e, no primeiro rasgo ou mancha irreversível, é tirado de cena. Durante muito tempo, seu destino foi a doação informal ou a conversão em pano de limpeza.

No entanto, quando entender como descartar lençóis e toalhas entra na estratégia do setor de suprimentos, o enxoval aposentado ganha status de matéria-prima. É exatamente nesse ponto em que o upcycling — a arte de transformar algo sem uso em um item de maior valor agregado — se conecta diretamente com a economia circular.

Ou seja, em vez de encarar a baixa do enxoval como perda, a recomendação é recorrer ao trabalho desempenhado por cooperativas locais e costureiras da comunidade, por exemplo. Como resultado, tecidos de algodão de altíssima fiação, que já não servem para a cama do hóspede, são cortados, costurados e transformados em:

  • pantufas ecológicas para as suítes;
  • sacolas reutilizáveis de lavanderia para substituir os sacos plásticos;
  • kits de boas-vindas, como necessaires ou ecobags institucionais.

O impacto financeiro é duplo: o hotel economiza na compra de insumos operacionais descartáveis e enxuga a conta atrelada à coleta e ao descarte do lixo. De quebra, entrega ao hóspede uma história real de impacto social e ambiental — a tal “narrativa sustentável” que o marketing adora, mas que aqui encontra respaldo em fatos tangíveis.

A guerra das embalagens: por que o PET funciona e o sachê é um pesadelo

Mão entregando bloco de madeira com símbolo de reciclagem para outra pessoa, ilustrando parcerias do setor de Compras e práticas de sustentabilidade em hotéis.
O departamento de Compras tem estreita relação com a gestão de resíduos em hotéis: entre outras coisas, é seu o papel de avaliar a embalagem dos produtos adquiridos — consequentemente, é importante considerar como deve ser feito o descarte ao término de sua vida útil | Crédito: Magnific

Enquanto a governança lida com o volume elevado dos tecidos, a equipe de Compras enfrenta nas bancadas dos banheiros um dos maiores desafios relacionados à gestão de resíduos em hotéis: a escolha das embalagens de amenities. E é na hora de fechar a cotação de shampoos, sabonetes, condicionadores e hidratantes que a economia circular e a logística reversa na hotelaria precisam ser colocadas na mesa.

Durante anos, os sachês plásticos foram vistos como sinônimos de economia e praticidade. Os icônicos sachês de ketchup e mostarda, largamente distribuídos em restaurantes e lanchonetes, são ótimos exemplos disso — só que exemplos do que não fazer. Apesar de parecerem inofensivos, eles se tornaram vilões ambientais difíceis de remediar por alguns motivos.

O primeiro deles é a sua composição: como são fabricados em estruturas laminadas multicamadas (misturando plástico e alumínio), sua reciclagem é tecnicamente complexa e cara. De quebra, é difícil higienizá-los corretamente, o que significa que geralmente eles chegam contaminados às cooperativas. Diante disso, seu valor de mercado é baixíssimo, tornando sua coleta desinteressante para os catadores. Outro ponto negativo (mais um!) é o fato de serem extremamente leves e flexíveis, o que aumenta a chance desses pequenos envelopes “escaparem” da coleta e poluírem oceanos e rios.

A alternativa óbvia parece ser o frasco rígido, mas até nisso o comprador precisa analisar o ciclo de vida. O PET, por exemplo, é um dos materiais mais maduros na cadeia de reciclagem nacional. Dados da Associação Brasileira da Indústria do PET (ABIPET) indicam que o Brasil recicla entre 53% e 56% de suas embalagens PET, números que posicionam o país entre os líderes mundiais na reciclagem desse resíduo, atrás de destinos como Japão, Alemanha, Coreia do Sul e Suécia.

A grande virada para o setor de Compras, porém, não é apenas garantir que o PET vá para a reciclagem, mas evitar que milhares de miniaturas plásticas entrem na operação. É aí que a logística reversa na hotelaria vira ferramenta de negociação. Em vez de comprar frasquinhos individuais, cada vez mais hotéis estão migrando para dispensers fixos alimentados por galões de refil — alinhando já no contrato que o próprio fornecedor deve recolher os galões vazios na entrega do lote seguinte. Essa dinâmica reduz drasticamente a geração de resíduos nas suítes e reintroduz as embalagens à cadeia produtiva.

Da cozinha aos eventos: o papel de Compras na gestão de resíduos em hotéis

Infográfico da ABIH-SP mostrando dez lixeiras coloridas de coleta seletiva (metal, vidro, papel, plástico, orgânico, perigoso, eletrônicos, saúde, baterias e lâmpadas), destacando a importância do descarte correto de resíduos.
Lixo é dinheiro: manual da ABIH-SP reitera que os hotéis devem contribuir para a construção de um futuro mais verde, o que inclui lidar corretamente com os resíduos gerados diariamente por hóspedes e colaboradores | Crédito: Reprodução/ABIH-SP

Parece muita coisa com a qual se preocupar? Pois ampliar práticas de sustentabilidade em hotéis exige olhar para além dos lençóis, toalhas e amenities. O fluxo de suprimentos que abastece as cozinhas, eventos e áreas operacionais gera um volume diário avassalador de itens que acabam virando descarte — e o mercado não tem mais espaço nem para acomodar tanta coisa, nem para o desperdício.

É exatamente esse o alerta do manual da ABIH-SP, que reúne boas práticas para a gestão de resíduos em hotéis. Segundo o documento, cada hóspede produz, em média, 1,67 kg de resíduos por dia. Em grandes centros, como São Paulo, a saturação dos aterros já obriga o envio do lixo para locais a mais de 150 km de distância — uma logística complexa que encarece diretamente a taxa de descarte paga pelos meios de hospedagem. A conclusão é cristalina: lixo é dinheiro.

Foi contra essa conta que não fecha que a associação paulista propôs o compromisso de eliminar ao máximo os plásticos descartáveis de uso único em seus hotéis associados até o final de 2027, ressaltando que é papel do setor contribuir para um futuro mais responsável.

No dia a dia dos empreendimentos, essa mudança ganha tração principalmente nos detalhes:

  • substituição do plástico-filme na cozinha por papel manteiga ou recipientes reutilizáveis;
  • eliminação de sachês individuais de geleia, manteiga, ketchup e maionese, dando lugar a estações a granel servidas em ramequins de louça ou vidro;
  • troca de garrafas plásticas de água por jarras de água filtrada, latas de alumínio (cujo índice de reciclagem gira em torno de 98%) ou embalagens tetra pak;
  • adoção de canetas de papelão ou madeira certificada em salas de eventos;
  • migração de sacos de lavanderia plásticos para alternativas em TNT, tecido ou papel craft (como as sacolas produzidas a partir do enxoval aposentado).

Para conferir a íntegra das práticas recomendadas para a gestão de resíduos em hotéis, basta acessar o manual da ABIH-SP na área exclusiva para assinantes do Portal do Hoteleiro. A assinatura é grátis e pode ser feita aqui.

A pergunta que deve guiar a próxima cotação

A implementação de práticas de sustentabilidade em hotéis não se restringe ao departamento de Compras, é claro, mas ganha força quando também o setor entra no jogo, olhando com mais atenção para o processo como um todo ­— mesmo porque decidir o que entra no hotel é, em última análise, determinar o que vai sair dele meses ou anos depois. A pergunta que fica para a próxima cotação é simples, mas revolucionária para o meio ambiente: “quando este item perder a utilidade para o hóspede ou para a operação, qual será o próximo capítulo da sua história?”.

Agora, a nossa dúvida é para você: a aderência à economia circular e à logística reversa na hotelaria já é uma realidade por aí? Deixe seu relato nos comentários e compartilhe com a gente qual é o insumo mais difícil (e oneroso) de descartar na rotina do empreendimento em que você atua!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi