5 perguntas essenciais para destravar a gestão de pousadas e hotéis pequenos

Quem olha de fora para a gestão de pousadas e hotéis pequenos muitas vezes enxerga apenas o seu charme: o atendimento acolhedor, a exclusividade, a promessa de refúgio. No entanto, por trás da construção de um ambiente aconchegante e intimista, existe uma dinâmica de negócio que precisa ser tão bem acomodada quanto a experiência do hóspede, ditando o ritmo e a fluidez da operação e oferecendo direcionamento estratégico na tomada de decisões.

Um dos grandes mitos é acreditar que ocupação máxima é sinônimo de lucro. Não é. Em propriedades com até 20 unidades habitacionais, é verdade que cada uma delas representa um percentual expressivo do inventário. Porém, é necessário fugir da tentação de preencher essas acomodações a qualquer preço. O melhor caminho não é vender mais: é vender melhor, ampliando a margem, o valor percebido e a própria eficiência operacional.

Dá para fazer isso seguindo à risca as boas práticas na hotelaria, adaptando-as para pousadas e hotéis menores? A resposta curta é: sim. No Adorai Chalés, por exemplo, essa engenharia de processos foi a responsável por aumentar em quase seis vezes o valor da diária média — e o empreendimento ficou em uma posição tão privilegiada que ele mesmo se tornou um atrativo do destino onde está localizado.

Entrevista exclusiva: os segredos da gestão de alta performance em pousadas e hotéis menores

O Portal do Hoteleiro procurou o empresário Marcelo Cristiano, fundador do Adorai Chalés, para entender qual é o segredo por trás de tamanho sucesso: o complexo de apenas oito acomodações transformou escassez em um tipo de estada cobiçado por muita gente, conquistando uma taxa de ocupação que se mantém acima dos 90%, diária média que ultrapassa R$ 1 mil e avaliações tão positivas que sua nota no Google é praticamente perfeita (4,9).

Apesar de ter construído um negócio que é referência em rentabilidade e experiência do hóspede, Cristiano defende um modelo de administração que se sustente por si só, com uma operação que saiba cultivar a excelência sem depender de sua presença física na propriedade. Os resultados do Adorai não nasceram do acaso: eles são fruto de métodos e estratégias que podem ser replicados em qualquer empreendimento independente.

Visando mapear como esses processos funcionam no dia a dia e reunir insights valiosos para a gestão de pousadas e hotéis pequenos, o Portal do Hoteleiro conectou a bagagem de Cristiano à visão de outras duas profissionais renomadas do chamado mercado pousadeiro.

A consultora Nathalia Borghi, criadora do projeto “Viver de Pousada”, traz a perspectiva de quem ajuda diariamente pequenos e médios hoteleiros a enxergar o que trava o crescimento. Aplicando a experiência adquirida à frente de uma pousada que ela viu nascer — e a qual enfrentou anos de prejuízo até compreender que o que faltava era a adoção de uma metodologia correta, que trouxe recordes de faturamento —, hoje ela se dedica a ensinar aos clientes como calcular o preço da diária, quais devem ser suas prioridades estratégicas e como organizar toda a rotina, do planejamento à estruturação da operação, evitando resvalar em erros comuns que custam (muito) dinheiro.

A ela, junta-se Renata Freire, especialista em branding hoteleiro e fundadora da consultoria Mkt dê Sentidos ®, que complementa a reflexão sobre boas práticas na hotelaria ao colocar a jornada e a experiência do hóspede no centro do negócio, reforçando a importância de trabalhar o posicionamento e a percepção de valor da marca.

Em uma entrevista esclarecedora para a gestão de pousadas e hotéis pequenos, o trio de especialistas dividiu com a gente um pouco de tudo: dicas para aperfeiçoar o atendimento e o processo de precificação, como otimizar a infraestrutura, modelos de treinamento que fazem a diferença e até mesmo como aumentar as vendas diretas. Os melhores momentos desse bate-papo você encontra abaixo.

1. O atendimento personalizado costuma ser uma das grandes apostas de pousadas e hotéis menores. Em compensação, a equipe tende a ser enxuta, o que pode ser desafiador diante de imprevistos. Como desenhar POPs (Procedimentos Operacionais Padrão) flexíveis, que funcionem na prática e que ajudem o empreendimento a não perder o toque humano?

Nathalia Borghi, criadora do projeto Viver de Pousada, posa sorrindo em uma varanda rústica de pousada. Ela está sentada à frente de uma mesa de madeira posta para o café da manhã, com o queixo apoiado na mão. Ao fundo, vê-se um jardim tropical com uma rede de descanso, representando hospitalidade e natureza.
Nathalia Borghi criou o projeto Viver de Pousada para orientar hoteleiros que sentem as “dores” da operação, mas encontram dificuldade em identificar os problemas e saber como corrigir a rota | Crédito: Reprodução/Viver de Pousada

🎤 Nathalia Borghi: Eu acredito muito em processos, mas tenho uma ressalva que vejo acontecer demais no mercado: processo não pode transformar hospitalidade em atendimento robotizado. Ele pode dizer o que precisa ser feito, em qual ordem, quais pontos não podem ser esquecidos e quem é responsável por cada etapa. O que ele não precisa fazer é determinar cada frase que o colaborador vai falar para o hóspede. É justamente aí que se preserva o toque humano.

O POP deveria existir principalmente para garantir consistência no que não pode depender do humor, da memória ou da experiência de quem está trabalhando naquele dia. Limpeza, conferência de apartamento, preparação do café da manhã, passagem de turno, tratamento de ocorrências, check-in, manutenção preventiva, controle de estoque… Tudo precisa ter um padrão claro, mas eu gosto de separar padrão de comportamento. A hospitalidade continua sendo humana. O processo simplesmente evita que o hóspede perceba o caos dos bastidores.

🎤 Renata Freire: Gosto de dizer que o padrão deve ser invisível para o hóspede, mas muito claro para a equipe. Ele precisa garantir que a experiência aconteça com consistência, mesmo quando a equipe está reduzida ou quando surge uma demanda inesperada, sem transformar o atendimento em um roteiro frio e mecânico. Por isso, antes de escrever um procedimento, eu faço uma pergunta essencial: “o que queremos que o hóspede sinta neste momento da jornada?”. A partir dessa resposta, definimos os padrões mínimos que não podem falhar — segurança, higiene, tempo de resposta, informações e responsabilidades — e criamos uma margem de autonomia para que o colaborador personalize a forma de entregar.

Um procedimento de check-in, por exemplo, precisa orientar como receber, quais informações observar, que sinais do hóspede merecem atenção e como adaptar a abordagem. Há quem chegue querendo conversar e conhecer toda a história da pousada; há quem chegue cansado, precisando apenas de agilidade, silêncio e acolhimento. Personalizar também é saber quando falar menos.

🎤 Marcelo Cristiano: O POP não deve ensinar o colaborador a repetir uma frase, mas a entregar um resultado, compreender o propósito daquele cuidado e ter autonomia responsável. No Adorai, estruturamos equipe, processos e tecnologia de maneira que aproximadamente 80% da operação não dependa da minha presença física.

A tecnologia deve automatizar principalmente os bastidores: confirmações, distribuição de tarefas, controle de estoque, registros, alertas de manutenção e perguntas repetitivas. O contato que envolve emoção, frustração, celebração ou uma necessidade especial deve ter uma passagem clara para uma pessoa.

Os procedimentos precisam ser simples e visuais. Em vez de manuais enormes que ninguém consulta, prefiro checklists de uma página, fotografias do padrão esperado e vídeos curtos demonstrando a execução. Outro ponto essencial é o treinamento cruzado: toda atividade crítica deve ter pelo menos uma segunda pessoa capacitada para executá-la.

Recomendo que cada POP tenha quatro partes: resultado esperado (como o ambiente ou o hóspede deve estar ao final do processo); pontos obrigatórios (aquilo que nunca pode deixar de ser feito); margem de autonomia (o que o colaborador pode adaptar sem pedir autorização); e plano de contingência (o que fazer quando faltar alguém, houver excesso de demanda ou surgir uma situação fora do padrão).

2. Quando o empreendimento não tem um inventário extenso, cada quarto vazio impacta significativamente a receita. Quais são as melhores estratégias de gestão financeira e de precificação dinâmica para manter a rentabilidade, mesmo no período de baixa temporada?

🎤 Renata Freire: Em um hotel com até 20 acomodações, quartos vazios têm um peso enorme, mas isso não quer dizer que a solução seja baixar indiscriminadamente as tarifas. Quando o empreendimento entra em uma disputa baseada apenas em preço, corre o risco de comprometer a margem, fragilizar o posicionamento e atrair um público que não reconhece o valor da experiência oferecida.

Eu sempre repito: seu hotel sempre será caro para o cliente errado. A precificação precisa começar pela compreensão dos números: custo fixo, custo variável por acomodação ocupada, margem de contribuição, ponto de equilíbrio e tarifa mínima sustentável, além do valor emocional entregue. Depois, é necessário acompanhar o calendário de demanda, os eventos da região, a antecedência das reservas, o ritmo das vendas, os cancelamentos e o desempenho de cada canal.

Um hotel pequeno não precisa estar lotado todos os dias para ser rentável. Ele precisa vender o inventário certo, pelo valor correto e para hóspedes que percebam valor no que está sendo entregue. O objetivo não é apenas ocupar quartos, mas transformar cada acomodação em receita saudável e cada estada em possibilidade de retorno e recomendação.

🎤 Nathalia Borghi: É muito comum o gestor acreditar que precisa “lotar a pousada”, “ter hóspedes durante toda a semana”, e começar a reduzir a tarifa. Só que ocupação sem margem não necessariamente significa um negócio saudável — e diária barata não significa venda. A pergunta deveria ser: “quanto essa diária precisa contribuir para a operação?”. O primeiro passo é conhecer profundamente a estrutura de custos da pousada. Sem isso, precificação dinâmica vira basicamente copiar concorrente ou baixar preço quando o calendário está vazio.

Em negócios muito sazonais, a alta temporada precisa gerar lucro e formar caixa para atravessar os períodos de menor demanda. Na baixa temporada, muitas vezes o objetivo financeiro mais inteligente é manter a operação saudável, cobrir custos, preservar caixa e trabalhar uma estrutura mais enxuta. A pousada também precisa ter uma tarifa mínima muito bem definida, abaixo da qual vender passa a destruir a margem. E, em vez de simplesmente reduzir tarifa, é possível criar condições específicas para determinados períodos: tarifa não reembolsável, benefícios para permanências maiores, vantagens para reservas antecipadas ou experiências que aumentem o valor percebido.

Como a maior parte do resultado financeiro costuma ser nos finais de semana, feriados e períodos de alta procura, é nesses momentos que a estratégia de preço precisa ser mais refinada e a pousada não pode vender barato por medo de ficar vazia. Às vezes, ganhar mais dinheiro não significa vender mais quartos, mas vender melhor os quartos que você já venderia.

🎤 Marcelo Cristiano: Além da ocupação, o gestor deve acompanhar diária média, RevPAR, custo por hospedagem, margem de contribuição por acomodação e resultado líquido. No Adorai, mesmo estando em uma cidade sem grande apelo turístico, trabalhamos com ocupação próxima de 95% e diária média superior a R$ 1 mil. Em 2018, nossa diária era R$ 196. Ela mais do que quintuplicou porque aumentamos o valor percebido, posicionamos a marca e deixamos de tratar preço como uma decisão isolada.

Cada chalé do Adorai representa 12,5% do inventário. Logo, a última unidade disponível não deveria ficar mais barata por ansiedade de vender: normalmente ela deve ficar mais cara, uma vez que a escassez é real. Na baixa temporada eu evito começar pela redução pública do preço. Primeiro analiso se o problema está na demanda, na oferta, na comunicação, no canal ou na conversão. Depois trabalho pacotes com mais diárias, experiências, vantagens de baixo custo, campanhas antecipadas, períodos de meio de semana e ofertas direcionadas para a base de clientes.

Eventuais condições especiais ficam concentradas em grupos fechados de clientes fidelizados. Não anunciamos descontos publicamente, porque isso treinaria o consumidor a esperar pela próxima promoção e enfraqueceria o nosso posicionamento premium. Minha recomendação é trabalhar com uma grade dinâmica revisada diariamente, considerando: velocidade com que as reservas estão entrando; antecedência da procura; número de acomodações restantes; dia da semana e duração da estada; eventos e datas especiais; histórico da mesma época; custo do canal de venda; e margem mínima que precisa ser preservada.

3. Sabendo que a margem de lucro em pousadas e hotéis menores pode ser bastante pressionada pelas comissões, como construir uma identidade de marca forte e canais de venda direta eficientes para reduzir a dependência das OTAs?

Renata Freire, criadora da empresa Mkt dê Sentidos, posa sorrindo com os braços cruzados sentada em uma poltrona preta. Ela veste um vestido de manga longa na cor vinho e está em um ambiente moderno e aconchegante, com iluminação quente.
Renata Freire é a idealizadora da Mkt dê Sentidos®, empresa de consultoria que defende um olhar apurado sobre a experiência do hóspede e a percepção de marca | Crédito: Divulgação

🎤 Renata Freire: As OTAs são importantes para ampliar a distribuição, mas não podem ser responsáveis por construir a identidade do hotel. Quando a comunicação é genérica, o hóspede enxerga apenas fotos de quartos, localização, nota e preço. Nesse cenário, ele compara o empreendimento como se todas as experiências fossem equivalentes.

Uma marca forte começa quando o hotel compreende o que deseja fazer o hóspede sentir. Na Mkt dê Sentidos® tentamos olhar para toda a jornada: o que a pessoa vê, escuta, toca, experimenta e guarda na memória antes, durante e depois da hospedagem. Esses estímulos precisam contar a mesma história e sustentar uma proposta de valor coerente. Não basta afirmar que o atendimento é personalizado ou que a pousada oferece exclusividade. É preciso materializar isso na linguagem, nas imagens, nos ambientes, nos aromas, na gastronomia, nos rituais de acolhimento e na forma como a equipe se relaciona com o hóspede.

Os canais diretos devem ser tratados como canais de venda e responder por mais de 70% das vendas. Isso exige um site intuitivo, motor de reservas eficiente, WhatsApp bem conduzido, agilidade nas respostas, conhecimento do produto e um processo estruturado de acompanhamento. Muitas reservas são perdidas não por causa do preço, mas porque o atendimento envia uma tabela e espera que o cliente decida sozinho.

A venda direta precisa oferecer benefícios claros — e não falo de descontos. Ela pode entregar maior flexibilidade, personalização, experiências exclusivas ou condições especiais para hóspedes recorrentes. O objetivo não é abandonar as OTAs, mas equilibrar os canais e assumir o protagonismo sobre a relação com o hóspede. Quanto mais desejo e identificação a marca desperta, menos dependente ela se torna da comparação por preço.

🎤 Marcelo Cristiano: Uma marca forte não começa no logotipo. Ela começa em uma promessa clara, repetida de forma coerente em todos os pontos de contato. No Adorai entendemos que não vendemos apenas chalé, piscina, café da manhã ou vista. Vendemos conexão entre casais. Esse posicionamento direciona o produto, a comunicação, as fotografias, o atendimento, as experiências e até aquilo que decidimos não oferecer.

Hoje, mais de 90% das nossas reservas são diretas, com as OTAs representando uma parcela que gira em torno de 5% a 10%. Construímos também uma audiência superior a 800 mil seguidores, mais de 2 mil avaliações no Google com nota 4,9 e um clube com mais de 500 membros. Esses ativos fazem com que o cliente não precise descobrir o Adorai novamente toda vez que desejar viajar. Nós mantemos o relacionamento e aumentamos o valor desse cliente ao longo do tempo.

Eu não defendo simplesmente abandonar as OTAs. Elas podem gerar visibilidade e trazer o primeiro hóspede. O erro está em permitir que uma plataforma seja proprietária permanente do relacionamento, mesmo porque qualquer mudança de comissão, algoritmo ou regra pode atingir imediatamente o caixa do empreendimento. Depois da primeira hospedagem, o empreendimento precisa conquistar autorização para se comunicar diretamente com o hóspede, gerar confiança, estimular o retorno e transformá-lo em promotor da marca. A OTA aluga audiência. A marca constrói audiência própria.

🎤 Nathalia Borghi: Eu não gosto da narrativa de transformar as OTAs em vilãs. Booking, Expedia, Decolar e outros canais cumprem um papel extremamente importante de distribuição e aquisição de novos hóspedes. A dor de cabeça começa quando a pousada não constrói nenhuma alternativa. Se praticamente todas as reservas vêm de intermediários, a pousada não tem apenas um problema de comissão, ela tem um problema de dependência comercial.

Para reduzir isso, eu começaria pela identidade da pousada. O hóspede precisa entender rapidamente por que escolher aquele empreendimento e não outro. E isso não significa necessariamente ter algo mirabolante: pode ser localização, arquitetura, gastronomia, atendimento, proposta para casais, experiência em natureza, silêncio, exclusividade, história. Porém, precisa existir uma razão clara. Quando todo mundo comunica “conforto, tranquilidade e café da manhã delicioso”, a comparação naturalmente vai para o preço.

Depois disso é que entram os canais próprios, não antes. Para mim, uma pousada deveria cuidar muito bem de pelo menos quatro pontos: Google, site, WhatsApp e Instagram. O Google costuma ser subestimado e é extremamente poderoso para negócios locais. Um perfil bem trabalhado, boas avaliações, fotos atualizadas e informações corretas fazem diferença tanto na descoberta quanto na decisão. Já o site precisa ser simples, rápido, confiável e permitir que o hóspede consulte disponibilidade e reserve sem dificuldade.

Existe um ponto em que muitas pousadas perdem dinheiro: o WhatsApp. Não adianta investir em tráfego, Instagram ou Google se o hóspede chega ao atendimento e encontra demora, respostas pouco comerciais ou simplesmente recebe uma tabela de preços. A equipe precisa saber investigar o que o hóspede procura e conduzir a conversa até a reserva. A melhor estratégia de como aumentar vendas diretas não é “sair da Booking”. É chegar a uma posição em que você possa escolher quanto quer vender por ela.

4. Lidar com a rotatividade de colaboradores é sempre um desafio, mas, quando isso ocorre na gestão de pousadas e hotéis pequenos, os impactos tendem a ser acentuados. Quais boas práticas de liderança e treinamento ajudam a engajar o time e assegurar a excelência no serviço?

🎤 Nathalia Borghi: Existe uma característica muito particular nas pousadas, que é o proprietário estar extremamente envolvido na operação. Isso pode ser uma vantagem enorme, mas também pode criar ambientes em que a equipe nunca sabe exatamente o que pode decidir, porque tudo precisa passar pelo dono. Uma das melhores práticas de liderança, na minha visão, é deixar muito claro o que se espera de cada função, quais são as responsabilidades e até onde vai a autonomia de cada pessoa. Muitos problemas atribuídos a “funcionário ruim” são, na verdade, consequências de falta de processo, treinamento ou direcionamento.

Também considero importante sair da lógica de treinar alguém apenas nos primeiros dias. O treinamento deve ser contínuo. Pode ser uma reunião rápida semanal, revisão de avaliações de hóspedes, simulação de situações de atendimento, atualização de procedimentos ou discussão de problemas que aconteceram durante a semana. É muito poderoso, inclusive, usar situações reais como ferramentas de treinamento. A pousada recebeu uma reclamação? Em vez de simplesmente procurar culpados, a pergunta deveria ser: “o que precisamos mudar para que isso não aconteça novamente?”.

Outro ponto é ensinar o porquê. Quando um colaborador entende por que determinada tarefa é importante para a experiência do hóspede ou para o resultado financeiro, ele tende a executar melhor do que quando apenas recebe ordens. Reconhecimento também importa. O mesmo dono que percebe rapidamente um erro deveria conseguir perceber também quando alguém resolveu um problema, recebeu um elogio ou foi além do esperado. Para mim, o objetivo é construir uma equipe que saiba trabalhar bem mesmo quando o proprietário não está olhando. Do contrário, o dono ainda não tem exatamente uma equipe: ele tem pessoas executando tarefas sob supervisão constante.

🎤 Renata Freire: Em pousadas e hotéis menores, cada colaborador tem um impacto enorme na experiência do hóspede. Muitas vezes uma única pessoa participa de diferentes momentos da jornada e se torna o rosto, a voz e a presença da marca. Por isso, a rotatividade não representa apenas um custo de contratação: ela pode interromper vínculos, comprometer processos e afetar diretamente aquilo que o hóspede sente.

O primeiro passo é contratar considerando não apenas a competência técnica, mas também os valores e a postura do profissional. É possível ensinar um procedimento, mas é muito mais difícil desenvolver genuíno interesse pelo outro quando essa disposição não existe. Depois da contratação, o colaborador precisa compreender a essência do empreendimento. Ele deve conhecer a história, o posicionamento, o perfil do hóspede e a intenção existente por trás de cada entrega. A liderança, por sua vez, precisa oferecer clareza, presença e segurança.

A excelência não nasce de uma equipe vigiada o tempo todo. Ela nasce quando as pessoas sabem o que se espera delas, compreendem a importância do próprio trabalho e percebem que também estão sendo cuidadas. Não é possível construir uma experiência genuinamente acolhedora para o hóspede em um ambiente que não acolhe quem trabalha nele.

Marcelo Cristiano, fundador do Adorai Chalés, sorri enquanto olha levemente para o alto. Ele veste uma camisa bege de linho em um escritório aconchegante, com uma parede ao fundo na qual se lê "Mentor de negócios e hospedagens".
Fundador do Adorai Chalés, case nacional em gestão de pousadas e hotéis pequenos, Marcelo Cristiano é mentor e especialista em fidelização de clientes. Criou a Academia de Hospedagem e a plataforma de hospedagens Exaltai, além de ser autor de três livros | Crédito: Divulgação

🎤 Marcelo Cristiano: Em uma equipe pequena, cada contratação tem um impacto enorme. Uma pessoa desalinhada pode comprometer o clima e a experiência do hóspede, enquanto um bom colaborador pode elevar o padrão de toda a operação.

A prática número um deve ser contratar principalmente pela atitude e pelos valores. Após a contratação, o treinamento não pode se resumir a colocar o novo colaborador ao lado de alguém mais antigo. O ideal é ter um processo em três etapas: observar, executar acompanhado e demonstrar que consegue cumprir o padrão sozinho. Eu recomendo microtreinamentos frequentes, baseados em situações reais, que permitam corrigir os processos e capacitar toda a equipe.

Outras práticas importantes são:

  • reuniões diárias rápidas para alinhar ocupação, chegadas, saídas e situações especiais;
  • reuniões semanais para analisar falhas e melhorias;
  • matriz de treinamento mostrando quem sabe executar cada atividade;
  • treinamento cruzado para as funções críticas;
  • indicadores simples e visíveis;
  • feedback rápido e respeitoso;
  • reconhecimento por atitudes coerentes com a cultura;
  • escala e responsabilidades claramente comunicadas;
  • autonomia com limites definidos para resolver problemas do hóspede.

Uma pesquisa amplamente citada da Gallup mostrou que os gestores podem responder por pelo menos 70% da variação no nível de engajamento entre equipes. Isso reforça que rotatividade não é apenas uma questão salarial. Clareza, justiça, reconhecimento, desenvolvimento e qualidade da liderança pesam muito.

5. Quais são as boas práticas na hotelaria para que um negócio de pequeno porte consiga equilibrar o investimento contínuo em melhorias estruturais e obter retorno financeiro sem pressionar o caixa?

Dois profissionais vistos de costas, usando capacetes brancos e coletes refletores, apontam para a fachada espelhada de um prédio moderno, simbolizando o planejamento e o cuidado com reformas e melhorias na infraestrutura hoteleira.
Pousadas e hotéis menores devem definir prioridades no momento de decidir onde investir em aprimoramento de infraestrutura, de modo que uma melhoria ajude a financiar a próxima | Crédito: Magnific

🎤 Marcelo Cristiano: Eu separo os investimentos em quatro grupos de prioridade: 1. segurança, legislação e continuidade operacional; 2. manutenções que evitam perdas ou gastos maiores; 3. melhorias que reduzem custos ou aumentam eficiência; 4. melhorias que elevam o valor percebido, a diária ou a ocupação. Intervenções puramente estéticas devem vir depois.

O empreendimento precisa manter três reservas separadas: capital de giro, manutenção e reinvestimento. O dinheiro da expansão não pode ser confundido com o dinheiro necessário para pagar impostos, salários, fornecedores e despesas dos próximos meses. Esse é um dos princípios do crescimento lucrativo que apresento no livro “Os 7 pilares da hospedagem lucrativa com paz e liberdade”: o lucro precisa pagar o investimento, remunerar o proprietário e ainda deixar recursos para reinvestir. Faturamento alto sem caixa livre pode criar apenas uma operação maior, mais complexa e mais dependente do dono.

No caso do Adorai, com oito chalés, fechar uma unidade para reforma sem planejar o período correto produz um impacto relevante na receita. Por isso, obras devem ser realizadas em etapas e, sempre que possível, testadas primeiro em uma unidade antes de serem replicadas. Também acredito que toda melhoria precisa ter um plano de comercialização. Não basta construir algo novo; é necessário fotografar, comunicar, transformar em argumento de venda, treinar o atendimento e demonstrar ao hóspede por que aquela experiência vale mais.

Pousadas e hotéis menores não precisam fazer tudo de uma vez. Precisam fazer na ordem correta, medir o resultado e permitir que uma melhoria ajude a financiar a próxima.

🎤 Nathalia Borghi: Pousadas são negócios que exigem manutenção constante. E, se o proprietário não tiver critério, o próprio negócio pode consumir todo o caixa que gera. Eu gosto de separar manutenção, melhoria e investimento. Manutenção é aquilo que precisa ser feito para que o produto continue funcionando dentro do padrão esperado. Melhoria é aquilo que aumenta conforto, experiência do hóspede ou eficiência operacional. Investimento é aquilo que deveria trazer algum retorno mensurável: aumento de tarifa, redução de custo, crescimento de receita, maior conversão ou valorização do produto.

Nem toda melhoria estética é investimento. Considero muito importante olhar para avaliações, comentários de hóspedes, pesquisas de satisfação e comportamento de venda antes de definir prioridades. Se os hóspedes reclamam constantemente do colchão, mas o proprietário quer trocar a decoração da recepção, provavelmente existe uma ordem de investimento equivocada. Financeiramente, também é essencial criar reservas específicas para manutenção e reinvestimento. O erro comum é esperar o problema aparecer para depois descobrir de onde vai sair o dinheiro. Em uma operação saudável, parte do resultado dos períodos mais fortes precisa alimentar essas reservas.

E, sempre que possível, eu avaliaria o retorno de cada melhoria. Se vou investir R$ 50 mil em uma reforma, o que espero que aconteça depois? Vou conseguir aumentar minha diária? Vou ocupar mais? Vou reduzir custo? Vou resolver uma reclamação recorrente? Em quanto tempo esse investimento se paga? Nem toda decisão precise ter retorno financeiro imediato. Hospitalidade também envolve experiência, estética e posicionamento. Mas o empresário precisa saber quando está fazendo uma escolha de marca e quando está fazendo um investimento financeiro. Misturar as duas coisas costuma ser uma das formas mais rápidas de comprometer o caixa de uma pousada pequena.

🎤 Renata Freire: O primeiro cuidado é não confundir experiência com grandes investimentos. Muitas pousadas acreditam que precisam começar por uma reforma extensa, quando existem ajustes menores capazes de transformar profundamente a percepção de valor.

Na Mkt dê Sentidos® fazemos uma leitura sensorial da jornada antes de recomendar qualquer investimento. Observamos o que o hóspede vê, ouve, toca, experimenta e sente em cada ambiente. Às vezes a maior fragilidade não está no mobiliário, mas na iluminação inadequada, no ruído, na falta de manutenção, na ausência de identidade, na apresentação do café da manhã ou em pequenos desconfortos que se acumulam ao longo da estada.

Os investimentos devem ser organizados por prioridade e as melhorias devem ser comunicadas. Se o hotel investe em novos enxovais, sustentabilidade, gastronomia, wellness ou conforto acústico, mas não traduz essa evolução em conteúdo, narrativa e argumentos de venda, parte do valor permanece invisível para o cliente. Sofisticação não é gastar mais; é saber onde o investimento produz mais percepção, mais desejo e mais resultado.

Hora de olhar para dentro: como está a maturidade operacional por aí?

Há muitos pontos em comum nas respostas fornecidas pelos três entrevistados. Esse cenário sinaliza que o êxito da gestão de pousadas e hotéis pequenos não está restrito a um ou outro empreendimento: ele está ao alcance de todos. O que geralmente falta é método. A profissionalização e a organização dos bastidores não engessam a hospitalidade ou diminuem o acolhimento. Pelo contrário. São esses ajustes que contribuem para a construção de um negócio altamente rentável, saudável na reputação e no caixa e com uma vida longa pela frente.

E no seu dia a dia: se a liderança precisasse se ausentar por duas semanas hoje, a operação continuaria rodando com o mesmo padrão de qualidade? Na sua opinião, qual é o maior gargalo que ainda trava o potencial de pousadas e hotéis pequenos: o medo de cobrar o preço justo, o desafio de como aumentar vendas diretas ou a dificuldade em equilibrar eficiência e toque humano nos bastidores? Deixe seu comentário abaixo!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi