“O meio ambiente é um assunto comum a todos”. Foi assim que Carlos Bernardo, vice-presidente de Operações da Accor Brasil (Hotéis Premium, Midscale e Econômicos), começou o webinar sobre boas práticas na hotelaria, gravado exclusivamente para o Portal do Hoteleiro. O material chega em boa hora, às vésperas do lançamento do manual da ABIH-SP, cujas orientações e insights pretendem contribuir para a eliminação do uso de plástico nos hotéis associados à entidade até o final de 2027. O timing favorável, aliás, não é coincidência, já que Bernardo é, também, vice-presidente da ABIH-SP.
Até pouco tempo atrás, era só falar em adotar uma gestão mais consciente e alinhada à preservação ambiental que o alerta do “custo, custo, custo” era imediatamente acionado na mente dos hoteleiros. Hoje, porém, tem havido um esforço do mercado para provar justamente o contrário: a sustentabilidade em hotéis ajuda a reduzir despesas. E tem mais um detalhe essencial: longe de ser apenas um selo na parede ou uma exigência burocrática, o ESG atualmente dita a preferência de grandes corporações e canais de distribuição. Ou seja, ser ou não sustentável já virou uma espécie de filtro entre viajantes e clientes.
Caso você queira assistir ao webinar na íntegra, fique de olho no canal do YouTube do Portal do Hoteleiro ou na aba “Vídeos” do nosso site. A gente garante: em breve ele estará disponível. Enquanto isso, reunimos aqui para você os destaques desse bate-papo.
Boas práticas na hotelaria: 3 decisões que alavancam a sustentabilidade ambiental do negócio
1. Do lixo à geração de renda (e a uma boa economia de dinheiro)

De acordo com Carlos Bernardo, uma das maiores viradas de chave começa em um lugar simples: a triagem do lixo. “Na cidade de São Paulo, a gente paga por todo o lixo que é recolhido pelas empresas nos hotéis”, afirmou. Isso porque existe uma lei (Lei nº 13.478/2002) na capital paulista que determina que qualquer estabelecimento comercial que produz mais de 200 litros de resíduos sólidos por dia é legalmente considerado um “grande gerador de resíduos”, devendo contratar empresas especializadas para a coleta, o transporte e o descarte adequado.
Nesse sentido, uma das boas práticas na hotelaria é aderir à reclassificação correta de papelão, alumínio, vidro e orgânicos — a chamada coleta seletiva —, capaz de diminuir drasticamente esse gasto. Afinal, há a possibilidade de firmar acordos com cooperativas de catadores, que estão sempre de olho em materiais como o papelão devido ao seu alto valor de mercado. Se a quantidade é elevada e frequente, a retirada muitas vezes nem é cobrada do hotel. Além de gerar alívio para o bolso, essa iniciativa contribui para a geração de renda, por meio da criação de mais de 330 mil empregos diretos no setor de reciclagem.
Quanto ao lixo orgânico, o vice-presidente da ABIH-SP comentou da possibilidade de utilizar equipamentos que diminuam o volume desses resíduos, uma decisão igualmente interessante em termos de economia. Isso passou a ser viável graças ao uso de tecnologias como desidratadores de alimentos, que processam os restos de comida, eliminam a água e reduzem o peso e o volume de resíduos orgânicos, transformando o que era sólido em um pó seco esterilizado. Outra opção são as composteiras elétricas, que tornam o que antes era simplesmente lixo em adubo natural pronto para o uso.
2. A era do plastic free
Se, na cozinha, o foco é o tratamento dos orgânicos, no salão e nos eventos o desafio é eliminar os materiais de uso único. Por isso, a transição para uma operação livre de plástico descartável tem se mostrado o próximo passo natural para ampliar a sustentabilidade em hotéis. Substituir copos, mexedores e itens de coffee break por opções biodegradáveis, à base de papelão, madeira ou cana-de-açúcar, traz duas vantagens enormes: o preço, significativamente menor do que o acrílico, por exemplo, e o fato de que esses materiais se decompõem muito mais rápido.
“E os fornecedores vieram junto, isso é muito importante. Hoje temos água em tetra pak, em alumínio, em garrafa de vidro retornável. Tudo isso facilita o nosso dia a dia, porque o fornecedor, vendo que a gente atua nessas boas práticas, também se propõe a fazer as mudanças nas suas fábricas, fazendo com que a gente tenha esse fornecimento de material que não agride tanto o meio ambiente”, salientou o executivo.
3. Conscientização potencializa o alcance das ações

Uma das partes mais legais de incorporar o ESG à cultura do hotel é a possibilidade de envolver hóspedes e colaboradores, oferecendo compensações pela sua participação ativa. Exemplo disso é a ação “Skip the clean”, da Accor, que premia o hóspede com pontos extras no programa de fidelidade se ele topar reduzir a frequência de limpeza do quarto e da troca de toalhas e lençóis no decorrer da sua estada.
“Há hotéis que estão tendo, por exemplo, em um volume de 200 apartamentos, 35 ou 40 acomodações por dia aderindo ao ‘Skip the clean’. Esse é um trabalho em conjunto: a hotelaria incentiva o hóspede a não gastar com o meio ambiente e [em troca, isso] também ajuda os hotéis, que não vão ter esse custo nas lavanderias. […] Todos têm que estar envolvidos. Não é uma questão de uma pessoa ou outra, é uma questão de humanidade, para a gente buscar um mundo melhor para todo mundo”.
No que diz respeito aos colaboradores, Carlos Bernardo ressaltou que eles são como multiplicadores das ações do empreendimento, disseminando as boas práticas na hotelaria até quando não estão no trabalho. “No momento em que a gente treina os colaboradores, estamos levando conhecimento para eles. Ao verem que é uma boa prática para o hotel, que reduz custos e que melhora a vida deles, a aplicabilidade é imediata. É bem interessante como há essa ‘compra’ por parte deles, porque eles aplicam isso no hotel e, quando chegam em suas residências, replicam lá”.
Esse envolvimento é a prova máxima de que o cuidado ambiental é visto no dia a dia, na prática, e que não está restrito às certificações fixadas na parede, embora seja preciso reconhecer o peso que elas agregam à marca e à sua reputação. “A própria Booking tem ícones que identificam os hotéis que estão em busca da sustentabilidade. […] Existem empresas hoje, globalmente, que não frequentam hotéis que não sejam eco-certified”, revelou.
ESG vai muito além do meio ambiente
Durante o webinar, o vice-presidente da Accor e da ABIH-SP lembrou ainda que falar em uma gestão mais sustentável significa olhar também para aspectos como diversidade e inclusão. O debate é válido porque tem muita gente por aí que acha que ESG se resume a práticas ecologicamente corretas, quando, na verdade, isso corresponde só a uma parte da sigla (ao “E”, de “Environmental”). Os pilares representados pelo “S” (“Social”) e pelo “G” (“Governance”) são tão fundamentais quanto esse. Inclusive, explicamos tudo sobre eles no post Como aplicar os 3 pilares do ESG na hotelaria (e o que você ganha com isso).
“A diversidade está muito presente na hospitalidade. Não é só o fato de o gaúcho trabalhar em Fortaleza, o cearense trabalhar em São Paulo, o paulista trabalhar em Brasília, o pessoal de Brasília trabalhar em Minas Gerais. […] O que mais vem à tona nos últimos tempos eu diria que tem a ver com os refugiados, com os países que estão em dificuldades, e nisso o Brasil é muito bom. Ele abre os braços para acolher essas pessoas que de alguma forma buscam prosperidade, buscam dias melhores em suas vidas. Hoje, existem programas fantásticos nos hotéis para poder acolher não só refugiados, porque tem estrangeiros também que não necessariamente são refugiados mas são muito bem recebidos por toda a cadeia”.
No entanto, o próprio executivo reitera: diversidade não é algo baseado apenas nesse quesito, e ter esse olhar apurado é, por si só, uma forma de incentivar a sustentabilidade em hotéis. “[A diversidade] Ela é baseada também na forma de se expressar, de todo mundo ter oportunidade de ser genuíno, de colocar sua sexualidade sem nenhum medo, sem agressão. […] A diversidade traz inovação, traz questionamentos, traz uma discussão muito bonita pra gente seguir buscando por um mundo melhor e mais igualitário. Nós temos que fazer composição e sempre dar suporte. […] Temos muitas pessoas que começam [no mercado de trabalho] com a hotelaria, que começam com restaurantes”, complementou.
Dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego respaldam essa afirmação: entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, foram criados quase 70 mil empregos formais no setor de turismo, segmento que atualmente responde por 5% da força de trabalho no país.
Os números mostram a grandeza e o impacto desse mercado na economia, mas a pergunta que não quer calar é: os meios de hospedagem estão mesmo fazendo a sua parte e ajudando a construir uma sociedade mais igualitária e mais verde ou a sustentabilidade em hotéis está apenas engatinhando no Brasil? Para você, o que são, exatamente, as boas práticas na hotelaria? Deixe um comentário!










