Precificação dinâmica e inteligência de mercado: por que a previsibilidade é essencial para a hotelaria

Artigo assinado por Luiz Henrique Miranda, comunicador social, âncora do Portal do Hoteleiro e CEO da Agência Amigo — Comunicação Integrada. Atua em comunicação estratégica, turismo, hotelaria e eventos*

A precificação dinâmica adotada pelas companhias aéreas é uma ferramenta legítima de gestão de receita. Ajustar tarifas conforme demanda, antecedência, disponibilidade, sazonalidade e ocupação esperada dos voos faz parte da lógica econômica da aviação moderna. O problema começa quando essa dinâmica se transforma, para o consumidor e para toda a cadeia do turismo, em imprevisibilidade quase absoluta.

Uma passagem pesquisada hoje pode apresentar valor substancialmente diferente poucas horas ou dias depois. Para quem viaja eventualmente, isso já provoca insegurança. Para hotéis, pousadas, operadores, agências, organizadores de eventos, destinos turísticos e empresas que dependem da movimentação de pessoas, o efeito é mais profundo: torna-se mais difícil planejar demanda, preço, ocupação, equipes, compras e investimentos.

A hotelaria conhece bem o conceito de tarifa dinâmica. Também ajusta preços de acordo com períodos de maior e menor procura. A diferença fundamental está na necessidade de preservar referências capazes de orientar decisões. O mercado funciona melhor quando agentes econômicos dispõem de informações que lhes permitam analisar tendências e reduzir o grau de incerteza.

É exatamente aí que ganha relevância o trabalho associativo de produção e compartilhamento de dados.

Informação reduz incerteza

Visão superior de um homem em sua mesa de trabalho analisando dados de precificação dinâmica. Ele aponta para a tela do notebook cercado por um tablet, pranchetas com relatórios financeiros, gráficos coloridos e uma xícara de café.
A ABIH-SP incentiva o compartilhamento de dados por meio da pesquisa mensal que mensura o desempenho da hotelaria paulista, colocando nas mãos dos gestores informações valiosas, que podem e devem nortear a tomada de decisão | Crédito: Magnific

A Pesquisa de Desempenho da Hotelaria do Estado de São Paulo, realizada mensalmente pela ABIH-SP, chegou em agosto de 2026 à sua 74ª edição. O levantamento acompanha indicadores essenciais, como taxa de ocupação, diária média e RevPAR, permitindo observar não apenas o desempenho de determinado mês, mas sua evolução em relação a períodos anteriores.

Em agosto, por exemplo, a hotelaria paulista registrou taxa de ocupação de 62,32%, com crescimento de 12,53% sobre julho. A diária média chegou a R$ 532,79, enquanto o RevPAR alcançou R$ 332,03, avançando 13,40% no comparativo mensal.

Mais importante do que o número isolado é a possibilidade de interpretar seu contexto.

O levantamento mostrou a retomada do segmento corporativo depois das férias escolares e em um mês sem feriado prolongado, ao mesmo tempo em que destinos associados ao lazer apresentaram retração. No comparativo com agosto de 2025, a taxa de ocupação avançou 9,31%, a diária média 13,53% e o RevPAR 24,11%.

Essas informações permitem que o empresário deixe de administrar somente por percepção e passe a tomar decisões apoiadas em referências coletivas.

Antecipar é tão importante quanto medir

A ABIH-SP vem agregando às pesquisas de desempenho outro instrumento particularmente importante: sondagens sobre expectativas para feriados, temporadas e períodos de maior movimentação turística.

Para o feriado de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 2026, a sondagem apontou expectativa consolidada de 64,99% de ocupação no estado de São Paulo. Vale do Paraíba-Serras, com 94,50%, e Circuito das Águas-Estâncias Climáticas, com 86,67%, apareceram entre as regiões com maior expectativa de demanda.

Há também uma demonstração importante de rigor metodológico: a entidade optou por não comparar diretamente 2026 com 2025, porque, no ano anterior, o feriado caiu em um domingo.

Parece detalhe, mas não é.

Comparar números sem considerar calendário, duração dos feriados, eventos, sazonalidade, condições econômicas ou comportamento da demanda pode produzir conclusões equivocadas. Dados só têm valor quando acompanhados de contexto.

Sempre que houver condições equivalentes, porém, comparar expectativas e resultados com anos anteriores será cada vez mais importante. Isso permite identificar tendências, calibrar projeções e melhorar o planejamento operacional dos meios de hospedagem.

Da aviação para a hotelaria: o impacto da precificação dinâmica

Visão em close-up de uma mão segurando um modelo de avião de brinquedo perto de uma janela de aeroporto. A imagem é usada para ilustrar como a precificação dinâmica na aviação impacta outros setores turísticos, como a hotelaria.
A maneira como a aviação utiliza a técnica de precificação dinâmica influencia os resultados de toda a cadeia do turismo, sobretudo por reduzir a previsibilidade do consumidor e afetar o planejamento dos negócios | Crédito: Magnific

É justamente nessa busca por previsibilidade que a precificação aérea merece maior atenção do turismo organizado.

Quando o preço do transporte oscila de maneira intensa, o impacto não se encerra no aeroporto.

Uma tarifa aérea muito elevada pode reduzir a permanência do viajante, provocar mudança de destino, antecipar ou cancelar uma viagem e alterar a composição do gasto turístico. O efeito percorre uma cadeia que inclui hospedagem, alimentação, transporte terrestre, atrações, eventos, comércio e serviços receptivos.

Um hotel pode ter estrutura, equipe, tarifa competitiva e demanda potencial — mas seu cliente precisa conseguir chegar ao destino.

Por isso, a discussão sobre passagens aéreas não deve ser tratada como assunto exclusivo das companhias ou dos passageiros. Trata-se de um componente estratégico da competitividade dos destinos.

A precificação dinâmica não precisa ser demonizada. Ela cumpre função econômica relevante. O que o setor deve discutir é como conciliar eficiência empresarial com maior transparência, previsibilidade e capacidade de planejamento para o consumidor e para a cadeia turística.

Dados também são uma forma de associativismo

Há uma dimensão ainda maior nesse debate.

Quando centenas de hotéis compartilham informações que, individualmente, teriam pouco significado, nasce uma inteligência coletiva que beneficia o setor inteiro.

A pesquisa de agosto reuniu respostas de 134 propriedades e trabalhou com referências regionais distribuídas por diferentes MRTs. A ABIH-SP também acompanha indicadores como relação entre funcionários e unidades habitacionais, despesas versus receita, perfil dos empreendimentos e desempenho por categoria e vocação principal — corporativa, lazer ou mista.

É associativismo transformado em informação.

Quanto maior a participação dos meios de hospedagem, melhor a qualidade dos indicadores. Quanto melhores os indicadores, maior a capacidade dos empresários de negociar, investir, dimensionar equipes, planejar tarifas e dialogar com fornecedores e poder público.

E quanto maior a série histórica, maior nossa possibilidade de distinguir uma oscilação episódica de uma verdadeira tendência de mercado.

A própria ABIH-SP disponibiliza aos assinantes do Portal do Hoteleiro os relatórios completos, com resultados regionalizados e séries comparativas.

Previsibilidade é competitividade

Hóspede recebe o cartão-chave do quarto das mãos da recepcionista no balcão de um hotel durante o check-in. Ao fundo, vê-se a recepção do estabelecimento.
A pesquisa de desempenho da hotelaria da ABIH-SP não é só um termômetro do setor: é um jeito de os hotéis ampliarem sua inteligência de mercado e ganharem competitividade | Crédito: Pexels

O turismo continuará convivendo com variáveis que ninguém controla: clima, câmbio, conjuntura econômica, crises internacionais e mudanças no comportamento do consumidor.

Não precisamos adicionar a elas mais incerteza do que o necessário.

O caminho não está em eliminar mecanismos de mercado, mas em produzir informação suficiente para compreendê-los, antecipar seus efeitos e tomar decisões melhores.

Se companhias aéreas trabalham com sofisticados sistemas de inteligência para precificar cada assento, hotéis, destinos e demais integrantes da cadeia turística também precisam ampliar sua inteligência de mercado.

É nesse ponto que pesquisas, sondagens e séries históricas deixam de ser simples estatísticas.

Elas se tornam instrumentos de gestão, competitividade e representação setorial.

Porque quem conhece o passado consegue interpretar melhor o presente — e ganha melhores condições para planejar o futuro.

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi