O balanço do primeiro semestre para a hotelaria em São Paulo em 2026 revela um cenário dinâmico, pautado pela alternância entre os picos do turismo de negócios e as oscilações sazonais das viagens de lazer. Como resultado, o mercado combinou meses de faturamento recorde com momentos de desaceleração pontual.
Os números que explicam essa trajetória vêm do levantamento mensal promovido pela Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado de São Paulo (ABIH-SP). A entidade compila e pondera dados operacionais fornecidos por sua rede de associados em todas as Macrorregiões Turísticas (MRTs) do estado, enfatizando três indicadores essenciais, que refletem a saúde econômica do setor: taxa de ocupação, diária média e RevPAR.
Entendendo o “trio de ouro” dos indicadores hoteleiros
Para interpretar os relatórios sem se perder nos conceitos fundamentais da hotelaria, é interessante relembrar o significado das três métricas analisadas:
- taxa de ocupação: mede a porcentagem de quartos vendidos em relação ao total disponível no estabelecimento durante determinado período. É o indicador primário do volume de hóspedes;
- valor da diária média: representa o preço médio cobrado por cada acomodação ocupada. O cálculo é feito dividindo a receita total de hospedagem pelo número de apartamentos vendidos no mês;
- RevPAR (Revenue Per Available Room): é a receita gerada por apartamento disponível. Trata-se do indicador mais completo de eficiência financeira, obtido pela multiplicação do valor da diária média pela taxa de ocupação (ou dividindo a receita bruta de hospedagem pelo total de quartos existentes no período, ocupados ou não).
Panorama: performance da hotelaria em SP em 2026
Para acompanhar a evolução do setor ao longo da primeira metade do ano, vale analisar a trajetória mês a mês — preparamos um resumo abaixo. Porém, antes de se debruçar sobre esses números, é preciso ter em mente que, embora eles sintetizem a performance geral do mercado, podem diferir da realidade de alguns empreendimentos devido às disparidades regionais.
Por exemplo, enquanto os destinos de sol e praia costumam atingir seus picos nos períodos de férias e feriados, é natural que a hotelaria corporativa na capital enfrente desaceleração, voltando a ganhar força e ritmo em épocas marcadas pelo arrefecimento do turismo de lazer. Isso ajuda a explicar por que alguns meios de hospedagem podem ter registrado números abaixo da média, mesmo que o desempenho macro tenha sido positivo.
Janeiro e fevereiro: lazer na alta temporada e retomada de negócios

O ano começou impulsionado pelas férias escolares e pelo intenso fluxo de viagens para o interior e regiões praianas. Resorts e pousadas registraram altíssima procura, atenuando o ritmo naturalmente mais brando dos destinos e empreendimentos corporativos nessa época.
Considerado o principal mês da temporada de verão, em janeiro a taxa de ocupação dos hotéis de SP ficou em 52,01%, acompanhada de uma diária média de R$ 535,12 e RevPAR de R$ 278,32. Apesar de leve queda (menos de 1% em cada um dos três indicadores) em relação a dezembro de 2025, o primeiro mês do ano trouxe resultados superiores se comparado ao mesmo período do ano passado — só o RevPAR cresceu 8,90%.
Em fevereiro, o período de transição pós-Carnaval marcou o reaquecimento gradual das agendas corporativas, embora o lazer tenha continuado em alta. O estado registrou ocupação de 53,41% e RevPAR de R$ 285,28. Em 2025, a taxa de ocupação havia sido um pouco maior (55,99%); em contrapartida, fevereiro de 2026 veio com um incremento de quase 10% no valor da diária média, saltando de R$ 487,22 para R$ 534,14, o que ajudou a compensar o menor volume de hóspedes e a trazer equilíbrio para o faturamento.
Março e abril: reaquecimento corporativo, feiras e recordes históricos
Os índices de março foram extremamente positivos, alavancados principalmente pelo fortalecimento do corporativo. Tendo como base comparativa os números de fevereiro, a ocupação subiu para 60,01% (+12,36%), a diária média alcançou R$ 539,44 (+0,99%) e o RevPAR avançou para R$ 323,72 (+13,47%). Inclusive, o RevPAR apresentou o segundo maior índice histórico desde o início da série.
Já abril veio com variações significativas. A demanda corporativa esteve presente, mas ficou abaixo das expectativas, o que puxou a ocupação para baixo. Por outro lado, o lazer, que contava com previsão de arrefecimento, surpreendeu, muito disso em virtude dos dois feriados prolongados do mês (Sexta-Feira Santa e Tiradentes) e da “emenda” com o feriado de maio do Dia do Trabalho.
A taxa de ocupação dos hotéis de SP ficou em 58,80% — ou seja, 2,02% abaixo do verificado em março. No entanto, o valor da diária média ganhou fôlego e atingiu o recorde nominal histórico de R$ 584,46, impulsionado pela pressão na alta dos preços e pelos grandes eventos. Exemplo disso foi a Agrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, que foi realizada em Ribeirão Preto entre 27/4 e 1/5 e deu um boom nos destinos que integram a região da Alta Mogiana.
Essa combinação de fatores levou também o RevPAR a uma marca inédita, de R$ 343,66, índice 6,16% maior do que o de março e 9,57% superior ao constatado em abril de 2025.
Maio e junho: mudança do clima e desfecho do semestre

Em maio, diante do começo da temporada de inverno e, consequentemente, de temperaturas mais baixas no litoral, a demanda hoteleira ficou concentrada nos centros urbanos. A taxa de ocupação cresceu 1,48%, passando para 59,67% — um dos melhores índices já registrados para essa época desde 2019 —, mas os outros indicadores apresentaram recuo em relação a abril: o valor da diária média ficou em R$ 567,22 (-2,95%) e o RevPAR em R$ 338,46 (-1,51%).
Junho, por sua vez, trouxe números preocupantes. Mesmo sendo um mês com feriado nacional (Corpus Christi) e o estado sendo palco para eventos de grandes proporções, como a Marcha para Jesus e a Parada do Orgulho LGBT+, o panorama não foi satisfatório. O RevPAR encerrou o semestre em R$ 275,97, o que corresponde a uma redução de 18,46% em relação a maio. Esse cenário de queda reverberou ainda na diária média, que caiu para R$ 514,29 (-9,33%), e na taxa de ocupação, que ficou em 53,66% (-10,07%).
Parte disso se explica pela falta de estratégia na construção do calendário de feiras e eventos — a Marcha para Jesus e a celebração de Corpus Christi compartilharam a mesma data, e a Parada do Orgulho LGBT+ foi realizada três dias depois, no domingo do feriado. Esse desequilíbrio nem sempre é benéfico para o setor, pois reduz a oferta, inflaciona as tarifas e mantém a demanda hoteleira concentrada em um único período, quando, na verdade, uma distribuição mais espaçada desses eventos seria mais vantajosa para os meios de hospedagem e para o turismo de modo geral.
Além disso, é preciso colocar outros fatores na balança. A chegada do frio desestimulou a procura por destinos de praia, o próprio feriado de Corpus Christi ficou aquém do esperado, houve uma desaceleração na agenda de feiras e congressos (o que é comum nessa época que antecede as férias) e junho também marcou o início da Copa do Mundo, com os dias de jogos da Seleção Brasileira afetando o desempenho do corporativo.
Resumo consolidado do 1º semestre de 2026 (recorte exclusivo do estado de SP)

Balanço final: maturidade operacional e desafios de margem
A primeira metade de 2026 provou que a hotelaria paulista tem força de atração tanto no lazer quanto nos negócios, sustentando diárias elevadas mesmo em meses de menor movimento. O desafio real para o restante do ano está da porta para dentro: os relatórios da ABIH-SP mostram que as despesas brutas continuam consumindo em média 67% da receita dos hotéis (praticamente dois terços do faturamento). Para o segundo semestre, manter a saúde financeira do setor dependerá não apenas de lotar acomodações, mas também de conter a pressão de custos e comissões, por exemplo.
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