Pergunta rápida: você acha que a decoração em hotéis exerce algum tipo de influência sobre a experiência do hóspede ou esse é um custo que o empreendimento poderia evitar sem dor na consciência? Segundo Christophe Bonadona, sócio-diretor da ARTEO e entusiasta do design iconográfico, a resposta não é uma questão de estética; é estratégia de negócio. “Hotéis com uma identidade visual bem construída tendem a elevar tanto a diária média quanto a ocupação, criando um ciclo virtuoso de performance”, afirmou ele em uma entrevista exclusiva para o Portal do Hoteleiro.
Embasamento ele tem de sobra: o foco da ARTEO recai justamente no uso de imagens e artes na decoração e no design, e o estúdio tem revolucionado a forma como os hotéis são percebidos pelo público. No portfólio da empresa, projetos desenvolvidos para gigantes como Accor, Blue Tree, Atlantica, Rosewood, Pestana e Intercity, que viram na ARTEO uma oportunidade de entregar uma ambientação diferenciada, que sabe conversar com o hóspede e, ao mesmo tempo, preservar as características e o DNA de cada unidade.
Conceito e aplicação: o que é o design iconográfico

O dicionário Michaelis tem duas ótimas definições para iconografia: “arte e técnica de representar por imagens” e “conhecimento da representação de imagens”. No caso da ARTEO, o que a empresa faz é dar uma roupagem totalmente nova aos ambientes por meio de estudos e muita criatividade na utilização de imagens e elementos artísticos.
Na prática, o design iconográfico contribui para a criação de uma assinatura visual única, algo especialmente importante em tempos de padronização excessiva, aquela que faz os meios de hospedagem serem tão similares. “Muitos hotéis adotam paletas neutras, mobiliário genérico e soluções copiadas de concorrentes, resultando em ambientes que poderiam estar em qualquer lugar do mundo. Isso elimina personalidade e impede que o hóspede crie memórias da estada”, explicou Bonadona.
Pois é, marcas também têm personalidade — e a identidade visual na hotelaria deve, necessariamente, ser um reflexo disso, estabelecendo uma conexão profunda entre o espaço físico e o tipo de mensagem que o empreendimento deseja transmitir. Para o especialista, “o design iconográfico cria coerência entre arquitetura, decoração, comunicação e experiência, permitindo que o empreendimento seja lembrado, fotografado e compartilhado”.
Em outras palavras, estamos em uma era em que o design é capaz de despertar sensações e emoções, fundindo-se ao imaginário do público e criando um diferencial inigualável para o hotel — imune, inclusive, a eventuais investidas da concorrência com tarifas mais baixas.
Nesse ponto, o diretor da ARTEO foi categórico. “Quando um empreendimento desenvolve elementos visuais próprios, padrões, símbolos, narrativas e atmosferas, ele deixa de competir apenas por atributos funcionais e passa a ocupar um território emocional e identitário. Isso reforça o posicionamento da marca e cria uma percepção de valor superior, pois o hóspede reconhece que está em um lugar que não poderia existir em nenhum outro contexto”.
A identidade visual na hotelaria como alavanca de receita

Ousar na criatividade e investir em uma proposta visual interessante são decisões que agradam mais do que aos olhos do hóspede: também fazem um bem enorme para o faturamento do hotel, funcionando como uma espécie de “motor” para a fidelização. Afinal, se o espaço como um todo evoca sensações positivas, é natural que o cliente se sinta tentado a voltar e a recomendar o empreendimento para outras pessoas.
Sob o ponto de vista de Bonadona, a relação entre design iconográfico e o êxito comercial do negócio é cristalina, já que “o investimento em identidade visual representa apenas uma fração do orçamento total, mas impacta diretamente indicadores como ADR [tarifa média diária], ocupação e reputação”. Essa mentalidade mais estratégica é o que evita que o empreendimento seja visto como um “hotel genérico”, que tende a entrar em guerra de tarifas para ganhar destaque.
De acordo com ele, “o hóspede paga pelo que percebe, não pelo custo real do investimento. Ambientes marcantes justificam diárias superiores porque entregam algo que não pode ser comparado apenas por preço. Assim, o mercado percebe que o design não apenas embeleza, como protege margens, acelera payback e fortalece a competitividade”.
E tem mais! Utilizar a decoração em hotéis para aprimorar a experiência do hóspede se traduz ainda em uma reputação digital mais sólida, volume acentuado de reviews positivos e maior presença orgânica nas redes sociais — aspectos que também acabam favorecendo a receita. “Quanto mais o ambiente provoca curiosidade, surpresa ou identificação, maior o impacto emocional e a probabilidade de compartilhamento espontâneo”, complementou o executivo.
Autenticidade, o novo luxo

A dúvida que fica é: nessa corrida por encantar e gerar engajamento com o hóspede, qual é o melhor jeito de captar sua atenção e garantir que o que ele viveu ali não será esquecido? Até pouco tempo atrás, uma viagem luxuosa, por exemplo, era aquela que envolvia restaurantes renomados, estadas cinco-estrelas, voos em primeira classe ou classe executiva e serviços de altíssimo padrão. Hoje, o panorama é outro: não é que sofisticação não importe — porque importa —, mas o hóspede contemporâneo valoriza autenticidade, originalidade e senso de lugar.
“Ele quer sentir que está em um ambiente com alma, que traduz a cultura local ou a personalidade da marca. A nova forma de luxo está na experiência: ambientes que emocionam, histórias que conectam, detalhes que surpreendem. Isso explica por que hotéis com forte identidade visual conseguem competir com grandes marcas globais mesmo sem ostentação. O hóspede quer viver algo único, e não apenas ocupar um espaço confortável”, afirmou o líder da ARTEO durante a entrevista.
Como essa mudança no comportamento do viajante se estende por todas as categorias de hospedagem, o design iconográfico não deve ser encarado como um privilégio do segmento upscale. A lógica é a mesma para todo mundo: construir uma identidade visual, gerar conexão e elevar a percepção de valor.
“Em hotéis econômicos, a estratégia [de design] costuma priorizar elementos de alto impacto visual com excelente custo-benefício, focando em pontos marcantes, que transformem a experiência sem exigir grandes investimentos. O desafio é maximizar o impacto com investimentos enxutos, criando ambientes memoráveis com soluções inteligentes”, comentou Bonadona.
Nos hotéis de luxo a iconografia pode ser mais detalhada, valendo-se de materiais sofisticados, narrativas mais profundas e maior densidade estética. Em contrapartida, é preciso cuidado extra para que os elementos visuais não compitam com a arquitetura. “[Nos empreendimentos de alto padrão] O design se integra a outros elementos da experiência — gastronomia, arte, arquitetura, serviço —, criando uma atmosfera mais complexa e imersiva. Em ambos os casos, o objetivo é o mesmo: sair do anonimato e criar um produto memorável”.
Design como ativo de marca: o que deve vir pela frente

Aproveitamos a oportunidade para questionar Christophe Bonadona quanto a tendências. O que está em alta agora? O que o mercado deve esperar da decoração de hotéis para os próximos anos? Para começar, a ênfase em autenticidade deve se manter, com mais e mais hotéis incorporando a cultura e a história do destino em que estão inseridos à sua narrativa.
No entanto, na visão do especialista, a tendência global número um é a construção de ambientes instagramáveis. “Hotéis que criam pontos fotográficos intencionais ampliam sua visibilidade sem depender de mídia paga”, disse.
E essa é só a pontinha do iceberg: a hotelaria global já começou a enxergar o design como ferramenta de performance. “Empreendimentos internacionais já tratam identidade visual como parte do modelo de negócio, e essa visão começa a se consolidar no Brasil. Em resumo, o design deixará de ser um ‘cenário’ e se consolidará como um dos pilares centrais da performance hoteleira”, concluiu.
Diante disso, a provocação que fica é clara: quando você olha com atenção para o seu negócio, o que você vê? Um ambiente com potencial para ser lembrado após o checkout ou um lugar que passaria batido na memória (e no feed) do cliente? O design iconográfico poderia contribuir para a melhoria da experiência do hóspede? Nossa seção de comentários está aguardando pelos seus insights!









