2º episódio do Pauta Hoteleira: os riscos da redução da jornada de trabalho na hotelaria

Já está disponível, no canal do YouTube do Portal do Hoteleiro, o segundo episódio do quadro Pauta Hoteleira. Mais uma vez o programa abordou temas que interessam — e muito! — a quem atua no setor: a jornada de trabalho na hotelaria e a possibilidade de pagamento de insalubridade às camareiras.

Assim como no primeiro episódio, participaram do bate-papo três membros da diretoria da ABIH-SP: o presidente Marcos Vilas Boas e os vice-presidentes Gustavo Jarussi e Latif Abrão Jr. Além do cargo na entidade, Latif é patrocinador do Portal do Hoteleiro e CEO do Hotel Terras Altas Resort & Convention Center, em cujo estúdio o episódio foi gravado. A conversa foi intermediada por Luiz Henrique de Arruda e Miranda, âncora e gestor do Portal.

Como as entidades setoriais enxergam a redução da jornada de trabalho na hotelaria

Logo no início do videocast foi reproduzido um trecho de uma apresentação de Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA). Em seu discurso, Sampaio reforçou a necessidade de uma articulação conjunta das entidades patronais para repercutir os impactos negativos do fim da jornada 6×1. “[Com] Dois dias folgando o trabalhador não vai ter a solução da vida dele”, disse, dando a entender que é preciso olhar com cautela para os prós e os contras.

Jarussi mostrou ter opinião semelhante. “Uma semana atrás eu peguei um Uber, e ele [o motorista] me abriu a parte de ganhos dele. […] Era uma pessoa formada em Tecnologia da Informação comentando que, com 12 ou 10 horas de trabalho por dia, tinha R$ 9,5 mil livres como salário mensal. Eu perguntei para ele ‘você não gostaria de trabalhar menos?’ e ele falou […] ‘se eu quiser, minha escala pode ser seis dias de folga e um dia de trabalho. Eu que escolho quanto quero ganhar’”.

Na visão do vice-presidente, é preciso considerar o momento de vida de cada trabalhador. “Ele pode ser solteiro, estar construindo a vida dele e querer trabalhar mais. Ele pode ser casado, [querer] ter um pouco mais de tempo para a família e trabalhar menos”. Ou seja, para ele, obrigar uma pessoa a diminuir seu expediente nem sempre é a opção mais desejada. Ou seja, para ele, obrigar uma pessoa a diminuir seu expediente nem sempre é a opção mais desejada. “Você começa a criar impeditivos travestidos de melhorias para a qualidade de vida”, complementou Vilas Boas.

Se, por um lado, uma eventual obrigatoriedade na redução da jornada de trabalho na hotelaria poderia justamente trazer mais qualidade de vida ao trabalhador — e essa é uma percepção forte por parte do público —, por outro isso pode representar um aumento significativo de custos operacionais para os negócios. “Quanto a gente vai pagar a menos por oferecer isso? Qual é a compensação que nós vamos ter? Não se fala em compensação”, declarou Latif Abrão Jr., em alusão à cobrança elevada de impostos, principalmente no que se refere à folha de pagamento.

“Você emprega uma pessoa que ganha 1. A folha de pagamento é 1 mais 1, quando não é 1 mais 1,2 […] É impossível o governo não ver isso. […] Eu poderia ter 200 e poucos empregados em vez de segurar com 100 e poucos”, ilustrou.

Um pouco de contexto: para entender melhor o debate sobre o fim da escala 6×1

Foto em primeiro plano com foco reduzido, mostrando a mão de uma pessoa estendendo uma Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) azul. O documento brasileiro está em destaque na diagonal, sendo possível ler claramente as inscrições em letras douradas na capa. Ao fundo, de forma desfocada, percebe-se o tronco de uma pessoa vestindo uma camiseta escura.
Confira agora um apanhadão de tudo o que está rolando envolvendo a extinção da escala 6×1 | Crédito: Reprodução/Agência Senado

A discussão acerca da redução da jornada de trabalho não é de hoje. No Senado, a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS) e atualmente aguardando deliberação do Plenário, já propunha, 11 anos atrás, que a carga horária fosse reduzida gradualmente de 44 para 36 horas semanais. Neste caso, a mudança seria implementada em fases: na primeira, a redução seria para 40 horas; depois, haveria a redução de uma hora por ano até atingir o limite de 36 horas.

O tema foi reacendido na Câmara dos Deputados recentemente, sobretudo após a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que defende a adesão à jornada 4×3 (quatro dias de trabalho e três dias de descanso). Se aprovada, as empresas terão 360 dias até a nova regra entrar em vigor. Há, ainda, outra PEC tramitando na Câmara — PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) — que estabelece praticamente a mesma coisa, com o diferencial de que essa implementação teria de ser feita ao longo de 10 anos.

A pauta é encarada como prioridade pelo Governo Federal. Prova disso é a entrega, no último mês de abril, do PL 1.838/2026, que visa substituir a escala 6×1 (44h/semana) pela escala 5×2 (40h/semana), garantindo ao trabalhador dois dias de descanso e nenhum corte de salário. Conforme apurou a Rádio Senado, “os detalhes poderão ser definidos por meio de negociação coletiva, respeitando as características de cada atividade”. A estimativa é de que a Câmara dos Deputados vote pela aprovação ou não do projeto de lei até o fim de maio.

Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, tem se mostrado favorável à redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. No entanto, de acordo com uma publicação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Motta se reuniu com representantes de sindicatos patronais na última terça-feira (5) e com um grupo de parlamentares para se aprofundar sobre os efeitos negativos da mudança sob a ótica de quem emprega, sinalizando que a decisão — e a votação — prometem levar todos os lados em consideração.

Consequências

Muito se fala sobre as consequências da extinção da escala 6×1 e da redução da jornada de trabalho na hotelaria. Com base no que foi dito no episódio do Pauta Hoteleira e em outras pesquisas que fizemos, podemos destacar as seguintes:

  • melhora na qualidade de vida dos funcionários, com mais tempo para atividades pessoais e familiares;
  • redução do número de casos de burnout e absenteísmo;
  • ampliação da produtividade;
  • aumento acentuado dos custos operacionais para as empresas, especialmente as que operam 24 horas, como os hotéis. Afinal, a mudança exigiria novas contratações para cobrir os turnos, o que geraria um boom nos custos em uma proporção de 20% e um impacto real nos custos fixos totais da operação de 8%;
  • necessidade de reestruturação da distribuição de trabalho dentro das organizações;
  • risco de aumento de informalidade, devido ao excesso de tributação e à dificuldade em manter as margens de lucro;
  • perda de autonomia e flexibilidade do colaborador que prefere jornadas maiores para maximizar ganhos no curto prazo.

A ABIH-SP concorda com o adicional de insalubridade às camareiras?

Quatro homens estão sentados ao redor de uma mesa de estúdio preta durante a gravação do videocast do Portal do Hoteleiro sobre a redução da jornada de trabalho na hotelaria. À direita, Luiz Henrique Miranda, gestor do Portal, e Latif Abrão Jr., vice-presidente da ABIH-SP. À esquerda, Marcos Vilas Boas e Gustavo Jarussi, presidente e vice-presidente, respectivamente, da entidade paulista. Todos vestem roupa social e conversam diante de microfones profissionais de rádio. Ao fundo, uma televisão exibe o logotipo do Portal do Hoteleiro e prateleiras com objetos decorativos completam o cenário do estúdio.
Dirigentes da ABIH-SP apresentam seus pontos de vista em um bate-papo polêmico e com temas bastante atuais | Crédito: Reprodução/Portal do Hoteleiro

Outro assunto que chacoalhou o videocast do Portal do Hoteleiro foi a questão do pagamento de adicional de insalubridade às camareiras.

Caso você não esteja por dentro desse tópico, a gente resume para você: existe uma norma regulamentadora criada pelo Ministério do Trabalho, a NR-15, que determina quais atividades e operações são consideradas insalubres e dão direito a um adicional de insalubridade. A norma existe há muito tempo, há quase 50 anos, mas tem gerado discussão porque, dependendo da interpretação, a atuação de camareiras  e das equipes de limpeza poderia esbarrar na exigência de adicional de insalubridade — o que, é claro, seria um impacto e tanto ao caixa dos hotéis. Explicamos tudo sobre isso neste post.

Para Gustavo Jarussi, não há dúvidas de que o termo “insalubridade” não se aplica à hotelaria. “Nós, com outras associações das quais fazemos parte, levamos estudos para o governo mostrando […] que não se aplicava, principalmente porque não mexemos com nenhum produto que danifique a saúde do colaborador”, ressaltou.

Vilas Boas concordou. “Esse problema nasce no Judiciário, […] equiparando o trabalho de camareira com o trabalho do lixeiro. […] A camareira é equiparável à [empregada] doméstica. […] São limpezas domésticas. É uma limpeza de quarto e uma limpeza simples de banheiro. Não é [como] um gari, [como] recolher lixo na rua, não é ter o problema de ficar exposto aos elementos, […] ser atropelado. [O gari] lida com lixo in natura […], o que é muito diferente”, argumentou o presidente da ABIH-SP.

Tanto o adicional de insalubridade às camareiras quanto a redução da jornada de trabalho na hotelaria trazem consigo um peso gigantesco para a gestão de meios de hospedagem. No momento, o mais indicado é acompanhar de perto os desdobramentos de tudo isso, já que as decisões seguem em aberto.

Para se manter atualizado, assista agora ao segundo episódio do Pauta Hoteleira e continue acessando o Portal do Hoteleiro! Inclusive, tem um conteúdo exclusivo em PDF aguardando por você na nossa área restrita, esclarecendo por que a conversa em torno do fim da jornada 6×1 deve, necessariamente, considerar a realidade do turismo. Torne-se um assinante do Portal — a assinatura é grátis — e confira este documento!

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Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi