sexta-feira, 20 fevereiro,2026
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Como a modernização tecnológica amplia a competitividade e fortalece o ESG na hotelaria

*Artigo assinado por José Roberto Muratori, diretor da Marbie Systems, empresa de consultoria e projetos de automação residencial e predial. Além de especialista em modernização tecnológica, também é criador e gestor do Projeto Conectar*

O setor hoteleiro atravessa uma inflexão estrutural. A agenda ESG – Environmental, Social and Governance – deixou de ser uma narrativa institucional e passou a compor o critério de avaliação de ativos, captação de investimentos e decisão de consumo.

Para hotéis já em operação, entretanto, a adoção de práticas ESG não ocorre por meio da substituição completa de infraestrutura, mas, sim a partir de programas estruturados de modernização tecnológica (retrofit). E é nesse ponto em que automação predial, digitalização operacional e inteligência de dados assumem papel estratégico.

1. Pilar Ambiental (Environmental): retrofit como ferramenta de descarbonização operacional

Retrato em plano médio de José Roberto Muratori, um homem de cabelos grisalhos e curtos, vestindo uma camisa social verde-clara. Ele está posicionado em um ambiente interno, olhando ligeiramente para a direita da câmera. Um pequeno microfone de lapela está preso à sua camisa. O fundo mostra uma janela com grades e vegetação.
Autor deste artigo, o especialista José Roberto Muratori enxerga a modernização tecnológica como vetor de competitividade e ESG no setor hoteleiro | Crédito: Divulgação

Grande parte dos hotéis em operação foi concebida sob premissas energéticas menos rigorosas. Isso explica por que sistemas HVAC convencionais, iluminação não setorizada e ausência de monitoramento em tempo real ainda são comuns.

Um programa de retrofit ESG orientado por dados pode incluir:

  • modernização de climatização: substituição de equipamentos ineficientes por sistemas VRF ou chillers de alta eficiência integrados à automação predial (BMS), com controle por ocupação real;
  • digitalização da medição: instalação de medidores setoriais de energia e água para permitir gestão por centro de custo e geração automática de relatórios ESG;
  • integração de energias renováveis: incorporação de geração fotovoltaica e reaproveitamento térmico, reduzindo o escopo de emissões;
  • gestão hídrica inteligente: utilização de sensores de vazamento, reuso de águas pluviais e monitoramento de consumo por pavimento.

Retrofit, nesse contexto, não se resume a uma atualização técnica – é um caminho direto para otimizar OPEX e a intensidade de carbono, por exemplo.

2. Pilar Social: modernização da experiência e qualificação do ambiente interno

A modernização tecnológica também impacta diretamente o componente social do ESG, transformando-se, por si só, em um instrumento de hospitalidade qualificada.

  • Experiência do hóspede: a atualização de quartos com automação integrada (iluminação, climatização, cortinas) e soluções contactless (sem contato) reduz o atrito operacional e melhora a percepção de inovação.
  • Qualidade Ambiental Interna (QAI): o monitoramento contínuo de CO₂, de umidade e de partículas eleva a salubridade, diminui riscos sanitários e agrega valor reputacional.
  • Inclusão e acessibilidade: a automação simplificada por comando de voz e as interfaces digitais multilíngues ampliam a acessibilidade sem necessidade de grandes intervenções estruturais.

3. Pilar Governança (Governance): dados estruturados como ativo estratégico

Programas de retrofit bem estruturados incorporam governança desde a concepção.

Estrutura estratégica de um programa de retrofit ESG

Close de uma pessoa com camisa azul escrevendo em um bloco de notas enquanto empilha cubos de madeira com ícones de sustentabilidade (coração com globo terrestre, símbolo de reciclagem e setas de ciclo). Sobre a mesa, há um gráfico da Agenda 2030, reforçando o papel da modernização tecnológica no alcance de metas ambientais e sociais na hotelaria.
A organização em etapas é essencial para que programas de retrofit ESG gerem eficiência, previsibilidade financeira e resultados mensuráveis | Crédito: Freepik

Para que o retrofit seja eficaz e não se limite a uma atualização pontual, recomenda-se uma abordagem em quatro etapas.

  1. Diagnóstico técnico e energético: auditoria de consumo, levantamento de sistemas instalados e identificação de gargalos operacionais.
  2. Modelagem financeira: análise de payback, TIR e impacto em valuation do ativo. Projetos bem estruturados frequentemente apresentam payback entre 24 e 48 meses.
  3. Implementação faseada: priorização de intervenções de maior impacto (climatização, iluminação, automação de quartos).
  4. Monitoramento contínuo: plataforma digital de acompanhamento com KPIs ESG claros e auditáveis.

ESG como driver de valorização de ativos hoteleiros

Investidores institucionais já incorporam critérios ESG em suas decisões. Afinal, fundos imobiliários e operadores internacionais avaliam intensidade energética, governança de dados e estratégia de descarbonização antes de aportar capital.

De modo geral, pode-se dizer que os hotéis que aderem a programas estruturados de retrofit tecnológico conseguem:

  • reduzir custos operacionais recorrentes;
  • aumentar a previsibilidade financeira;
  • aprimorar a reputação da marca;
  • ampliar o acesso a linhas de crédito verdes;
  • alavancar o valuation do ativo imobiliário.

Diante disso, fica claro que o retrofit não deve ser encarado como uma despesa e nem como um projeto isolado, pois integra eficiência, experiência e governança em uma mesma arquitetura operacional e desempenha um papel crucial em termos de reposicionamento estratégico. Por isso mesmo, esse processo de transformação deve ser contínuo.

Hotéis que adotam essa visão não apenas se adaptam às exigências do mercado – tornam-se ativos mais resilientes, rentáveis e preparados para o futuro.

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi