Frigobar em hotel: ter ou não ter? Se William Shakespeare tivesse sido hoteleiro, talvez essa fosse, hoje, uma de suas citações mais famosas. Brincadeiras à parte, a dúvida é legítima. Há quem defenda que o frigobar traz conveniência e conforto para o hóspede, o que estimula a compra e faz bem para o caixa. Por outro lado, há as perdas por validade e até o risco de furtos — sem mencionar os custos com reposição e com a conferência diária dos itens, já que tudo o que é consumido deve ir para a conta do cliente.
Dados de mercado indicam que a polêmica geladeirinha pode representar cerca de 5% de todas as vendas efetuadas por um empreendimento, o que é um percentual considerável. Alcançar esse índice (e até melhorá-lo, por que não?) é uma meta possível, mas exige superar a ideia de que basta lotar as prateleiras de produtos e jogar o preço dos itens lá em cima, sem critério algum. Mais do que adotar estratégias de precificação, é necessário aliar inteligência de dados a um rigoroso controle de estoque, sempre partindo do pressuposto de que tudo faz parte da experiência do hóspede.
O que colocar no frigobar?

Ampliar o faturamento com alimentos e bebidas por meio de uma gestão precisa do frigobar vem com uma condição: abandonar a padronização que por anos imperou no setor hoteleiro. Isso porque o modelo tradicional de preencher todas as unidades com as mesmas marcas de refrigerantes, água e chocolates já não responde às expectativas do viajante moderno.
A rentabilidade começa no desenho do mix de produtos — o qual, por sua vez, deve começar com a identificação dos hábitos de consumo do hóspede. Que tipo de produto mais o interessa? Existe algo que ganhe (ou perca) relevância em determinada época do ano? Estudar o perfil de compra dos visitantes é um fator decisivo para transformar o frigobar em hotel em um ponto de vendas genuinamente importante para o negócio.
Além disso, vale a pena cruzar essas informações com o perfil do próprio empreendimento. Hotéis corporativos talvez se beneficiem mais se disponibilizarem snacks rápidos e bebidas energéticas, por exemplo, por entenderem que quem está em uma viagem a trabalho tem mais chance de precisar desse tipo de praticidade. Já meios de hospedagem de lazer ou boutique pedem por uma experiência sensorial reforçada, abrindo espaço para cervejas artesanais locais, vinhos em meia garrafa, queijos da região e castanhas selecionadas.
De modo geral, pode-se dizer que os itens de maior saída são aqueles que geram compra por impulso e oferecem satisfação instantânea, como batatas fritas, amendoins, chocolates, água mineral, refrigerantes e bebidas alcoólicas (principalmente cervejas). Entretanto, a melhor recomendação sempre será adaptar a oferta ao comportamento do cliente, uma vez que isso favorece a taxa de conversão e, ao mesmo tempo, elimina a necessidade de armazenar ainda mais produtos em cada acomodação — afinal, se o mix atual já atende às necessidades, para que superlotar as prateleiras, não é?
Como lucrar com o frigobar: estratégias de precificação

Quando o hóspede entra no quarto e abre o frigobar pela primeira vez, pode ter certeza: ele já está esperando encontrar preços salgados. Embora cobrar mais caro até faça sentido devido ao imediatismo e à conveniência proporcionados, trabalhar com valores exorbitantes não amplia o faturamento com alimentos e bebidas. Pelo contrário: pode gerar o movimento contrário e estimular os visitantes a irem até uma padaria ou mercadinho se isso significar gastar menos dinheiro.
Portanto, em vez de sair dobrando ou triplicando o valor dos produtos, o ideal é colocar vários aspectos na balança, tais como:
- quais são os custos atrelados aos produtos que se deseja disponibilizar (custos de aquisição + custos operacionais)?
- quanto a concorrência cobra pelos mesmos itens?
- qual é o perfil do hóspede: ele está constantemente à procura do melhor custo-benefício ou não se importa de desembolsar uma quantia extra se isso trouxer mais comodidade?
- o empreendimento fica em uma região isolada, distante do comércio, ou cercado por lojinhas e supermercados?
Mapeadas essas variáveis, as estratégias de precificação podem ganhar ainda mais força se somadas às seguintes ações:
- aderir à precificação dinâmica — sobretudo se o hotel utilizar cardápios digitais, acessados via QR Code —, levando em consideração fatores como sazonalidade e taxa de ocupação;
- diversificar e mesclar produtos populares com opções premium/gourmet, que permitam cobrar um preço mais elevado. A mesma coisa se aplica aos produtos locais, sobre os quais o hóspede dificilmente tem referência de preço;
- estruturar combos e pequenas promoções, concedendo descontos para quem consumir mais de um item no decorrer da estada;
- não abastecer o frigobar com os mesmos produtos encontrados no restaurante e/ou no bar do meio de hospedagem, para que não haja conflito de preço nem competição interna;
- comunicar todos os preços de forma clara e transparente, a fim de evitar desgastes no checkout e perda de credibilidade da marca.
O papel do controle de estoque na gestão do frigobar em hotel: 4 dicas
Um bom gerenciamento do frigobar em hotel não só dá um up no lucro, como ainda contribui para a redução do desperdício. Se os itens são selecionados a dedo e personalizados para cada hóspede, perdas motivadas pelo vencimento e pelo excesso de insumos não devem ser problemas recorrentes.
Contudo, para que a teoria funcione na prática, o dia a dia exige (exige!) um controle de estoque efetivo, que contemple, entre outras coisas:
- reposição ajustada à taxa de ocupação, com uma configuração reduzida do frigobar na baixa temporada, para que os itens não fiquem parados por longos períodos sem necessidade;
- orientar a equipe encarregada da reposição a organizar os produtos de acordo com a data de validade — os que vão vencer primeiro devem ficar sempre posicionados na frente (método First In, First Out);
- atualização imediata do consumo no sistema (ou o mais próximo disso), seja via comandas eletrônicas (com as camareiras fazendo a conferência durante a arrumação do quarto) ou por meio de sensores instalados diretamente no frigobar, que detectam automaticamente quando algo é retirado da prateleira. Quanto menor for essa janela de tempo, menores as chances de divergências depois — inclusive reduzindo drasticamente a possibilidade de o hóspede sair sem pagar;
- treinamento adequado dos funcionários, assegurando que as políticas de utilização do frigobar sejam devidamente compartilhadas com os hóspedes — durante o check-in, é interessante comunicar onde está localizado o cardápio e reforçar que a cobrança é lançada ao longo da hospedagem.
Veja bem, ninguém espera que o frigobar vá salvar sozinho a receita de um hotel ou liderar o consumo in loco. Contudo, deixá-lo esquecido em um canto é negligenciar o poder de um balcão de vendas em miniatura localizado no espaço mais nobre de todos: o quarto do hóspede. E a estratégia em torno do seu abastecimento é um daqueles pequenos (grandes) detalhes que ajudam a criar uma percepção favorável à marca, refletindo sem demora na saúde financeira do negócio.
Você acredita que o uso apropriado e inteligente do frigobar em hotel pode ajudar a “deslanchar” o faturamento com alimentos e bebidas? Quais são os principais deslizes que você ainda vê os gestores cometerem quando se trata de estratégias de precificação e controle de estoque? Deixe um comentário!











