A alta temporada em hotéis não é só uma das épocas mais promissoras em termos de ocupação e faturamento; o período também está entre os mais exaustivos para os funcionários. Para quem atua no front desk, a pressão por agilidade e o ritmo intenso podem desencadear ou acentuar a sensação de ansiedade no trabalho, sobretudo por se tratar de uma atividade que requer contato diário com o público — e, portanto, vem com a exigência de sustentar uma postura profissional e cortês, mesmo diante de situações difíceis.
No-show, overbooking, reclamações, imprevistos, solicitações de todos os lados. Não são poucos os desafios depositados sobre o balcão de uma recepção de hotel, uma área tão estratégica para o negócio que funciona quase como uma “salvaguarda” do empreendimento. Porém, ao mesmo tempo em que o setor é um “resolvedor de problemas” nato, sem as ferramentas certas as cobranças e a tensão do dia a dia só crescem. E aí é uma questão de tempo até que o estresse deixe suas marcas mais clássicas: quedas na motivação, na produtividade e na proatividade.
Se os gestores não souberem lidar com isso, o resultado é um efeito dominó: o desgaste acumulado afeta a paciência, a clareza de comunicação e a empatia, prejudicando a experiência de quem pagou para estar ali. A chave para interromper esse ciclo não está em forçar o outro a engolir o choro. Longe disso, aliás. Além de rever processos internos para evitar a sobrecarga, é preciso reconhecer que esses sintomas não são frutos do acaso, estimulando a adoção de medidas que permitam ao time processar o cansaço e a irritação naturalmente.
O que é inteligência somática e por que ela importa
Existe um conceito — inclusive relacionado aos campos da psicologia somática e da neurociência — chamado inteligência somática, que consiste em utilizar o corpo como “ponte” para o autoconhecimento, incentivando as pessoas a prestarem atenção aos sinais que ele dá e a utilizarem essa “leitura” para regular o seu lado emocional. Ombros tensionados, respiração curta, dentes travados e aceleração cardíaca, por exemplo, são alertas claros de que o colaborador não está se sentindo à vontade.
Desenvolver essa consciência corporal permite que o recepcionista perceba rapidamente os gatilhos que geram ansiedade no trabalho. Em vez de reagir no piloto automático ou deixar transbordar o excesso de tensão, o profissional ganha espaço de manobra para aplicar pequenas intervenções de regulação física — e, consequentemente, ele não leva essa carga negativa para o próximo hóspede que for atender.
3 técnicas para aliviar a ansiedade no trabalho

Há algumas técnicas de descompressão rápida (ou simplesmente técnicas de relaxamento, se preferir) que podem ser especialmente bem-vindas para quem estiver trabalhando na alta temporada em hotéis. Isso porque elas ajudam os colaboradores a desanuviarem a mente e a manterem o autocontrole sem demandar que eles se afastem do balcão por longos períodos, representando uma espécie de “reset” no sistema nervoso.
Alimentar a calma interior não é fraqueza e nem perda de tempo. Para se ter uma ideia, em 2022 a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) — o braço regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas — lançou o guia “Em tempos de estresse, faça o que importa”, que ressalta justamente a importância de encarar o estresse com seriedade, salientando que qualquer pessoa do mundo está sujeita a ele. Até a Harvard Medical School (HMS) recomenda a utilização de técnicas de descompressão em prol da saúde mental.
Abaixo você encontra três exemplos — mas tenha certeza de que há diversos outros que podem ser colocados em prática.
- Respiração diafragmática de transição: inspirar profundamente pelo nariz, expandindo o abdômen, e soltar o ar lentamente pela boca. A expiração prolongada acalma a frequência cardíaca.
- Soltura de pontos de tensão: na pausa entre um atendimento e outro, soltar a mandíbula, relaxar a língua no céu da boca e baixar os ombros conscientemente (o ideal é girar os ombros para baixo e para trás).
- Método 5-4-3-2-1: observar atentamente o que está ao redor e enumerar, mentalmente, 5 coisas que você ouve, 4 coisas que você vê, 3 coisas que você pode tocar de onde está sentado, 2 coisas que você pode cheirar e 1 coisa que você pode provar (pode ser o gosto do café, de uma bala ou de qualquer outro alimento ou bebida que houver à disposição). Ao forçar o indivíduo a focar nos detalhes, esse método ajuda a trazer a atenção de volta ao momento presente e a aliviar o estresse. Trata-se de uma conhecida técnica de ancoragem.
Segundo a premissa da inteligência somática, a ansiedade no trabalho é uma resposta neurofisiológica — afinal, ela entende que o corpo é quem reage primeiro, detectando o estresse e disparando reações biológicas antes mesmo de a mente processar o que está acontecendo. Em contrapartida, também não faltam estudos que comprovam que a ansiedade é um mecanismo de proteção do cérebro, acionado quando temos que tomar uma decisão ou entrar em ação. De uma forma ou de outra, não seria errado afirmar que a ansiedade é uma forma de o organismo responder e reagir às condições do ambiente em que o indivíduo está inserido.
Vale lembrar que saúde mental é um tema de tal relevância que, hoje, ele também é responsabilidade das empresas. A atualização recente da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determinou que “os riscos associados à saúde mental deverão ser identificados e gerenciados pelos empregadores, assim como já eram geridos os riscos físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos”, conforme conteúdo publicado pelo Estúdio Jota.
A bem da verdade, é uma expectativa irreal esperar que a equipe não sinta a pressão inerente à alta temporada em hotéis. Você já utilizou e/ou acredita no poder das técnicas de descompressão? Acha que elas têm potencial para melhorar o atendimento ao cliente nos empreendimentos hoteleiros? Na sua visão, onde a recepção ainda peca no que tange à experiência do hóspede? Deixe seus comentários na seção abaixo!











