Duzentos e sessenta e cinco bilhões de horas: foi esse o tempo que a população brasileira passou no celular em 2023, conforme levantamento feito pela empresa Rocket Lab. Esse número excepcional, e até um pouco assustador, explica, em partes, por que a fadiga digital é um tema que está ganhando cada vez mais relevância — e gerando cada vez mais preocupação, já que a exposição prolongada às telas pode se tornar fonte de estresse e de ansiedade.
Ao distribuir esse total por pessoa, a média cai para 3,5 horas diárias de uso do smartphone. Em uma escala de “melhor” e “pior”, dá para dizer que esse panorama não é tão ruim assim, certo? Nem tanto. Se considerarmos as horas que passamos dormindo, sobram cerca de 16 horas úteis para aproveitar o dia — e só o celular consome quase um quarto desse período.
O Giz Brasil, site de tecnologia, ciência e cultura que é parceiro do UOL, fez uma análise interessante: isso equivale a assistir, todos os dias, a “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, filme que faz parte de uma trilogia conhecida mundialmente pela duração acima da média de suas produções. Já pensou? A título de comparação, leva apenas uma hora para percorrer, a pé, toda a extensão do Parque Ibirapuera, em São Paulo — um jeito muito mais saudável de ocupar o tempo ocioso.
Pode parecer contraditório falar em fadiga digital em plena editoria de Tecnologia, mas nosso intuito aqui é refletir se o avanço da tecnologia na hotelaria está, de alguma forma, contribuindo para alimentar esse cenário e trazer insights que ajudem a atenuar isso.
Existe isso de tecnologia demais?

O uso exacerbado de telas pode ter relação com vários fatores: trabalho, estudos, entretenimento. A motivação não importa tanto assim. Curioso mesmo é notar uma das principais consequências dessa presença online acentuada no dia a dia: a priorização de viagens que promovam uma desconexão total, quase um detox digital. Existe uma tendência chamada deadzoning (“zona morta”, em uma tradução livre) que reflete justamente isso: a preferência por lugares remotos, longe do “barulho” e da dinamicidade infinita das redes sociais, por exemplo.
É nessa busca por respiro que a tecnologia na hotelaria convive com uma espécie de paradoxo. As inovações trouxeram um ganho de agilidade indiscutível para o setor e para os seus clientes: fazer o check-in pelo aplicativo antes mesmo de sair de casa, abrir a porta do quarto com o próprio smartphone e ter um chatbot 24 horas à disposição para esclarecer dúvidas relacionadas à hospedagem são símbolos máximos de comodidade e conveniência. E tudo isso costuma rolar de um jeito bastante intuitivo, então os atritos tendem a ser mínimos.
Em contrapartida, de certa forma a automação “força” o usuário a usar o seu dispositivo móvel para quase tudo, inclusive para coisas pequenas, como consultar o menu do restaurante, reservar uma massagem ou até acessar as regras do hotel. Se, por um lado, os QR Codes são mais sustentáveis do que o uso do papel, por outro eles tornam o hóspede dependente do aparelho mesmo durante aquele que deveria ser um momento de descanso.
No geral, o viajante contemporâneo adora a rapidez e a facilidade dos processos digitais. Isso não está em xeque. E sentir fadiga digital também não significa, necessariamente, que ele queira um atendimento ultra humanizado a cada passo ou isolar-se do mundo inteiro só porque está de férias. Nesse ponto, cabe ressaltar um dos resultados obtidos em uma pesquisa desenvolvida pela Booking.com com mais de 24 mil pessoas: apesar de o “desconectar-se” figurar como tendência, a maioria dos turistas (53%) não abre mão de conexão wi-fi e cobertura telefônica.
O diferencial, aqui, talvez seja contar com uma “hospitalidade híbrida”, que saiba aproveitar a praticidade trazida pela tecnologia na hotelaria e ainda assim permitir que o hóspede “esqueça” o celular no quarto quando for sair para jantar ou quando quiser fazer qualquer outra coisa no bom e velho modo offline.
Bom senso: o antídoto para a fadiga digital na hotelaria

Encontrar o ponto de equilíbrio entre conveniência operacional e excesso de estímulos é tarefa das mais importantes. O consumidor moderno é perfeitamente capaz de valorizar a agilidade de um faturamento eletrônico enviado diretamente para o e-mail e, minutos depois, preferir um mapa impresso ou um livreto de papel com as regras da casa em vez de acessar essas informações pelo visor do telefone.
A solução para os empreendimentos hoteleiros é simples: transformar o digital em algo opcional, jamais obrigatório. Caso o cliente queira dar uma olhada no cardápio físico ou solicitar algo diretamente a um funcionário no corredor, o hotel precisa estar pronto para atender às suas demandas com a mesma destreza que faria online. Garantir essa liberdade de escolha parece ser uma das chaves para o sucesso da experiência do hóspede atualmente.
A automação desenfreada pode ser um tiro no pé até para o empreendimento, especialmente se as ferramentas forem implementadas sem um propósito claro. Para que a inovação traga resultados reais sem sufocar o cliente e a própria equipe, vale a pena entender a fundo os critérios essenciais para o uso de tecnologia na hotelaria, garantindo que a modernização aconteça de forma inteligente e natural.
Até alguns anos atrás, automatizar processos era algo considerado futurista. Hoje, um dos desafios é não usar demais a tecnologia para não empurrar o hóspede para a fadiga digital sem querer. Se você atua na área, como você percebe isso aí na sua rotina? Dá para notar que alguns clientes estão viajando para se desconectar ou essa tendência ainda não é tão visível? Compartilhe sua opinião nos comentários!










