Artigo: redução da jornada exige diálogo para preservar empregos e a sustentabilidade da hotelaria

Foi promulgada, no último dia 16 de outubro, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1, assegurando aos trabalhadores dois dias de descanso remunerado por semana e limite máximo de oito horas diárias de expediente. A redução da jornada será feita gradualmente, caindo de 44 para 40 horas semanais, sem impacto nos salários. Com a decisão do Congresso Nacional, as empresas terão um período de transição para se adaptar à nova realidade: em dezembro de 2026 passa a valer primeiro a jornada de 42 horas; a redução definitiva para 40 horas deve entrar em vigor em dezembro de 2027.

A medida exigirá a reorganização de escalas e a reestruturação do modelo de trabalho adotado por diversos setores — entre eles, a hotelaria. Dada a natureza do serviço de hospitalidade, permanentemente à disposição do hóspede em qualquer dia ou horário, essa mudança demandará dos empreendimentos uma revisão de processos e uma gestão ainda mais estratégica, que consiga amarrar todas as pontas e garantir a eficiência da operação.

Sob o ponto de vista de Heber Garrido, executivo que acaba de chegar à diretoria da ABIH-SP, a redução da jornada é válida porque beneficia os trabalhadores. No entanto, ele defende que essa virada de chave deve acontecer com responsabilidade e planejamento. Confira, abaixo, o artigo assinado por ele — e deixe um comentário ao final compartilhando conosco a sua opinião.

*Artigo assinado por Heber Garrido, diretor-executivo da ABIH-SP e proprietário da HOG MKT, agência de Brand Match e Marketing Live*

O debate sobre a redução da jornada de trabalho e a revisão das escalas precisa conciliar um objetivo legítimo — melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores — com as características dos diferentes setores da economia.

Na hotelaria, essa análise é especialmente importante. Hotéis funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, inclusive aos finais de semana e feriados. Recepção, Governança, Manutenção, Alimentos & Bebidas e outras áreas precisam assegurar continuidade ao atendimento, independentemente do horário.

Foto em enquadramento fechado (plano médio) de Heber Garrido, executivo da ABIH-SP. Ele é um homem de pele clara, calvo, com olhos castanhos, sorrindo para a câmera. Veste um paletó azul-marinho sobre uma camisa social branca de colarinho aberto. O fundo é neutro, em tom claro de cinza.
Heber Garrido, diretor-executivo da ABIH-SP, reflete sobre o fim da escala 6×1 e os impactos na hotelaria neste artigo exclusivo | Crédito: Divulgação

A ABIH-SP reconhece a importância da qualidade de vida dos trabalhadores e entende que eventuais mudanças devem ser implementadas com planejamento, diálogo e negociação coletiva. A meta deve ser preservar empregos, condições adequadas de trabalho, qualidade dos serviços e sustentabilidade econômica dos meios de hospedagem.

Uma redução da jornada poderá exigir reorganização das escalas e, dependendo da realidade de cada empreendimento, novas contratações. Em uma simulação da passagem de 44 para 40 horas semanais, manter a cobertura operacional — sem considerar ganhos de produtividade — exigiria aproximadamente 10% mais profissionais nas equipes afetadas.

É importante compreender corretamente esse indicador: ele não representa aumento de 10% no custo operacional total dos hotéis nem significa que todos os empreendimentos precisarão ampliar seus quadros nessa proporção. O impacto dependerá das escalas atuais, do porte do hotel, da composição das equipes e dos serviços oferecidos.

Da mesma forma, eventual aumento de custos não será automaticamente transferido às diárias. A formação de preços depende da concorrência, da demanda, da sazonalidade e da capacidade de cada empreendimento de absorver despesas. Alguns hotéis também poderão rever processos e horários de serviços complementares.

Produtividade, portanto, precisa fazer parte da discussão. Revisão de processos, capacitação, melhor dimensionamento das equipes e uso responsável da tecnologia podem contribuir para uma operação mais eficiente.

Mas há uma característica que não pode ser esquecida: hotelaria é feita por pessoas e para pessoas. A tecnologia pode eliminar tarefas repetitivas e apoiar a gestão, mas acolher, cuidar, orientar e solucionar situações inesperadas continuam dependendo de profissionais preparados.

A ABIH-SP defende que uma mudança dessa dimensão seja construída com previsibilidade e diálogo entre trabalhadores, empresas, entidades representativas e poder público. O desafio é encontrar um caminho que permita avançar na qualidade de vida sem comprometer empregos, competitividade e excelência no atendimento.

Na hotelaria, cuidar das pessoas significa cuidar de quem trabalha, de quem se hospeda e da capacidade dos empreendimentos de continuar gerando oportunidades.

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi