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O produto sumiu, e agora? Como controlar o estoque e proteger a margem do hotel

Além do fluxo constante de hóspedes, existe outra movimentação dentro dos hotéis que ajuda a sustentar a operação: o ir e vir de suprimentos. Afinal, colaboradores de todas as áreas precisam de recursos para desempenhar o seu papel. Mas, se tanta gente utiliza e depende dos itens armazenados internamente, como controlar o estoque de modo adequado? E, acima de tudo, de quem é a culpa quando um produto desaparece sem registro ou acaba vencendo na prateleira?

Nem sempre é fácil encontrar essa última resposta. O setor de Compras argumenta que entregou o pedido negociado e no prazo. Governança se apoia no fato de que solicitou as peças de enxoval e os amenities necessários para abastecer as acomodações. Manutenção garante que a retirada de itens foi para não deixar o hóspede na mão. O time de Alimentos & Bebidas alega que todas as decisões são tomadas pensando em entregar a melhor experiência gastronômica.

É natural que cada departamento tenha o seu próprio ritmo e demandas diferentes. No entanto, se não houver regras claras para integrar rotinas tão distintas, a gestão de almoxarifado em hotéis nunca vai ser tão profissional quanto deveria.

Onde nascem os gargalos no gerenciamento de suprimentos?

Uma van de entrega branca está estacionada dentro de um grande armazém, com as portas traseiras abertas e carregada com caixas de papelão. O armazém está repleto de prateleiras altas e cheias de caixas, indicando um processo de recebimento de mercadorias. Na parte frontal, algumas pilhas de caixas estão no chão, como se estivessem prestes a ser organizadas ou movidas, um exemplo claro de gestão de almoxarifado em hotéis em andamento.
Quando a gestão de almoxarifado em hotéis não é feita de maneira estruturada, as más decisões acabam cascateando por toda a operação — uma das mais graves é a compra excessiva (e desnecessária) de itens | Crédito: Magnific

O problema central do gerenciamento de suprimentos geralmente não é a má-fé dos colaboradores, mas a ausência de um “dono”, alguém que tome conta do processo de ponta a ponta. Quando cada setor enxerga apenas o seu lado do fluxo, o estoque é rebaixado a um mero depósito, sendo que, na verdade, ele é um ativo financeiro e uma área vital para o negócio.

Essa falta de clareza sobre sua importância favorece a tomada de decisões equivocadas, tais como:

  • o departamento de Compras foca exclusivamente em obter o melhor preço nas negociações, então adquire quantidades altas demais de vários itens sem necessidade, superlotando as prateleiras e, assim, aumentando o risco de perdas por vencimento;
  • existe uma cultura de “retiradas informais”, em que os colaboradores passam rapidamente pelo almoxarifado, pegam os materiais e, em prol da agilidade, deixam o registro para mais tarde — só que o “mais tarde” às vezes nunca chega;
  • não há auditoria nem cobrança pela contagem de itens, o que significa que problemas de extravio só são descobertos muito tempo depois, quando já é impossível rastrear a origem do furo.

Quem faz o quê: como controlar o estoque indicando o responsável por cada etapa

Para acabar com o empurra-empurra de responsabilidades e entender como controlar o estoque com eficiência, é fundamental estabelecer papeis claros e blindar todo o processo. Em primeiro lugar, é necessário contar com a figura do almoxarife (ou gestor de estoque), o guardião físico e fiscal dos produtos até o momento de sua entrega para outro setor. Sua função é assegurar a integridade dos itens, a organização das prateleiras e a precisão dos registros de entrada e saída.

Nenhuma mercadoria deve deixar o almoxarifado sem uma Requisição Interna de Material (RIM) ou um registro digital autorizado pela liderança da área solicitante. Ao assinar o recebimento, o gestor do departamento assume formalmente a “custódia” do insumo e fica incumbido de que ele seja utilizado corretamente, dentro do orçamento estipulado.

Além disso, cada setor deve ter um “miniestoque de segurança”, já que isso ajuda a atender às demandas com mais rapidez. Ou seja, se uma lâmpada queimar às 23h de um sábado, o ideal é que a equipe de Manutenção tenha pequenos lotes de emergência e não precise recorrer ao almoxarife para lidar com a situação.

Esses itens “extras” são solicitados antecipadamente ao estoque principal e, a partir do momento em que os produtos trocam de mãos, quem responde por eles já não é mais o almoxarife, mas sim o supervisor de Manutenção ou líder do turno (nesse caso específico das lâmpadas). Sempre que essas “cotas” operacionais forem utilizadas, um registro deve ser feito, pois isso permite que a área preste contas na próxima reposição.

A tabela abaixo ilustra bem como essa distribuição de responsabilidades favorece a gestão de suprimentos em hotéis.

Etapa

Responsável direto

O que deve ser feito

Especificação e pedido

Setor requisitante + Compras

O requisitante especifica a demanda; Compras cota o melhor custo-benefício, adquire a mercadoria no volume correto e negocia o prazo.

Recebimento e conferência

Almoxarifado

Validar nota fiscal, quantidade, prazos de validade e integridade dos produtos (embalagens lacradas, sem avarias, na temperatura adequada etc.).

Armazenamento e controle de giro por validade

Almoxarifado

Organizar adequadamente os produtos, assegurando que os itens mais antigos sejam retirados primeiro (método FIFO).

Requisição e consumo Setores requisitantes

Solicitar a retirada via requisição formal (RIM), justificar a necessidade e responder pelo uso correto após a retirada, evitando desperdícios.

O “mapa” das falhas: 5 exemplos de métricas para acompanhar

Sem saber como controlar o estoque apropriadamente, cedo ou tarde os gargalos operacionais se transformam em prejuízo. Portanto, o gerenciamento de suprimentos deve ser guiado por dados objetivos. Acompanhar indicadores claros permite que o empreendimento saia do achismo e consiga rastrear a causa-raiz de cada inconsistência.

Aqui vão alguns exemplos de dados que vale a pena manter constantemente no radar.

  • Acurácia do inventário: mede o percentual de correspondência entre o saldo físico nas prateleiras e o saldo registrado no sistema — a meta operacional recomendada é ficar acima de 98%. Esse índice avalia a confiabilidade do controle interno e sinaliza falhas de processo, como retiradas sem registro ou erros na conferência de entrada.
  • Taxa de desperdício e quebra: registro detalhado de itens descartados por vencimento, avaria, deterioração ou extravio. Mais do que mensurar a perda, esse indicador deve apontar a área geradora (como A&B, Governança ou Manutenção) para direcionar correções no manuseio e no armazenamento.
  • Giro de estoque e “aging” (tempo de prateleira): calcula o tempo médio que cada produto permanece guardado antes de ser consumido ou vendido. Isso identifica compras em volume excessivo e mapeia mercadorias sem movimentação há mais de 30, 60 ou 90 dias, prevenindo a imobilização desnecessária de capital de giro.
  • Taxa de ruptura de estoque: registra a frequência com que produtos essenciais ficam indisponíveis para a operação ou para o atendimento ao hóspede, servindo de alerta para investigar se a falha ocorre no ponto de reposição interno ou no descumprimento de prazos pelos fornecedores.
  • Custo de Mercadoria Vendida (CMV): mostra quanto o hotel gasta em mercadoria para cada real que entra no caixa do restaurante, bar ou com a realização de eventos, por exemplo. Acompanhar esse dado garante que o custo dos pratos e bebidas fique dentro da meta e protege a margem de lucro contra compras de emergência e desperdícios.

A gestão de almoxarifado em hotéis ainda hoje levanta muitas dúvidas — e é ótimo proporcionar o espaço necessário para debatê-las, porque uma das piores decisões é deixar que o estoque se torne uma “terra de ninguém”, sem regras, sem exigências e sem responsabilidades.

Diante disso, gostaríamos de perguntar a você: qual é a dica que você dá para o empreendimento que está tentando descobrir como controlar o estoque com maestria? Você acredita que o correto gerenciamento de suprimentos é um trampolim para aumentar a margem e a rentabilidade do hotel? Deixe um comentário!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi