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Pandemia, guerras, inflação: como Compras ajuda a escapar do desabastecimento em hotéis?

Abrir uma pousada com pelo menos 20 quartos custa em torno de R$ 2 milhões. O valor te surpreendeu? Pois essa é só a verba inicial. Sustentar o dia a dia com a excelência necessária para construir boa reputação e prosperar requer investimento elevado, sim, além de uma engenharia complexa. Afinal, é preciso orquestrar todo tipo de serviços ­— da arrumação e limpeza à manutenção —, se garantir no atendimento ao público e ter uma gestão eficiente também nos bastidores. A falta de estratégia no setor de Compras, por exemplo, coloca o negócio cara a cara com um problemão: o desabastecimento em hotéis.

Essa vulnerabilidade ficou escancarada em 2020, quando a pandemia travou as fronteiras e o mundo viu tudo desacelerar. Os hotéis foram especialmente impactados e tiveram que tirar vários coelhos da cartola para não fecharem as portas. Ainda assim, mais de 3 mil empreendimentos encerraram suas atividades nesse período, de acordo com dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Em meio a esse cenário de forte instabilidade, sobreviveram aqueles que tinham fôlego maior no caixa e que souberam se reinventar, tanto aos olhos dos hóspedes quanto nos processos internos. Qual será que foi o legado disso para o gerenciamento de riscos na cadeia de suprimentos? Ou a área de Compras na hotelaria não precisa(va) de nenhuma mudança drástica? Reservamos este post para refletir sobre como é possível evitar o desabastecimento em hotéis com planejamento e com um olhar apurado para a gestão de fornecedores.

Por que o estoque do hotel precisa ser resiliente?

O receio do novo coronavírus ficou para trás, mas o mercado segue enfrentando grandes desafios: conflitos geopolíticos, oscilações cambiais drásticas, eventos climáticos extremos, inflação. Tudo isso afeta a produção, o comércio e a distribuição de mercadorias — e, eventualmente, tudo isso respinga em Compras.

O perigo para o estoque (e para a experiência do hóspede) nem sempre está no atraso do caminhão com o novo lote de produtos de limpeza, por exemplo. A chegada dos itens ao destino depende de diversas variáveis, e muitas vezes elas afetam a indústria que abastece o setor.

Quem atua na hotelaria sabe perfeitamente que limpar um hotel é diferente de limpar uma residência, demandando o uso de produtos com ativos químicos específicos, como o quaternário de amônia. Porém, se der qualquer xabu com a matéria-prima base, que é importada, as fabricantes nacionais não conseguem produzir os desinfetantes que o setor precisa para uma limpeza profissional. E aí não tem jeito: os hotéis vão mesmo demorar a receber seus pedidos.

Se a pandemia deixou alguma moral da história para o universo corporativo foi que a eficiência operacional de um negócio depende diretamente da sua capacidade de resistir a interrupções inesperadas. Para os meios de hospedagem, entre outras coisas, isso significa transformar o gerenciamento de riscos na cadeia de suprimentos em prioridade máxima, blindando a operação contra os gargalos “ocultos” do mercado.

Estratégias de gestão de fornecedores para combater o desabastecimento em hotéis

Pessoa vestindo camisa azul-escuro está sentada atrás de uma mesa preta e aperta a mão de outra pessoa, simbolizando uma parceria para evitar o desabastecimento em hotéis. Sobre a mesa, há um laptop prata aberto de perfil e diversas folhas com gráficos de barras, linhas e pizza em tons de azul.
Fazer a gestão de fornecedores implica ter diversos parceiros comerciais confiáveis, e não concentrar todas as demandas em um único distribuidor | Crédito: Magnific

Quando o apagão é global e falta matéria-prima na indústria, nenhum setor sai ileso. No entanto, o impacto nos hotéis pode ser atenuado dependendo da maneira como é feita a gestão de fornecedores. Apostar todas as fichas em um único parceiro comercial apenas porque ele oferece o preço mais baixo pode até fazer bem para o cofrinho da empresa no aqui e agora. Só que basta que a sombra de uma crise se aproxime para que o desabastecimento em hotéis se instaure — e, junto com ele, instaure o caos, diga-se de passagem.

Diversificar o leque de fornecedores é uma garantia de segurança operacional. Não à toa, redes como a Accor têm 180 fornecedores homologados. Trouxemos esse dado à tona pela primeira vez em um post que tem tudo a ver com esse assunto: Por trás do credenciamento de fornecedores: como evitar riscos e reduzir custos em até 18%.

Para o comprador, mapear e gerenciar essa segurança operacional é algo que se constrói em três frentes principais, como veremos a seguir.

1. Identificação de itens vitais

Nem todo produto tem o mesmo peso na operação, e é dever do comprador saber exatamente o que pode paralisar o hotel em um curto espaço de tempo. Sem os alvejantes necessários para a lavanderia, a pilha de lençóis e toalhas sujos começa a crescer e, depois de um tempo, o time de governança se vê impossibilitado de liberar os quartos. A mesma coisa vale para os produtos de limpeza e para insumos de A&B. Já pensou ficar sem o básico para o café da manhã?

Outro exemplo, ainda mais grave, tem a ver com a qualidade da água do hotel: se faltarem os químicos para o tratamento preventivo dos reservatórios e das torres de ar-condicionado, o sistema de climatização precisa ser desligado (para evitar a dispersão de bactérias nocivas no ar) e a potabilidade da água é ameaçada. O caos, nesse cenário, envolve interditar andares inteiros ou suspender temporariamente as atividades devido aos riscos à saúde de colaboradores e hóspedes.

Classificar o estoque por esse nível de impacto real é o que define onde o desabastecimento em hotéis se torna uma ameaça inadmissível.

2. Inclusão de fornecedores regionais na jogada

Pequenas caixas de papelão kraft apoiadas sobre minipaletes de madeira estão dispostas em cima de um mapa de ruas impresso, ilustrando a logística com parceiros locais para evitar o desabastecimento em hotéis. Uma linha vermelha conecta um pino de localização vermelho em primeiro plano a um pino laranja ao fundo.
Um dos caminhos para contornar os riscos na cadeia de suprimentos é apostar nos fornecedores locais, que podem ser a salvação em caso de falta de insumos | Crédito: Magnific

Para mandar bem na gestão de fornecedores, a dica é vasculhar a região em busca dos melhores parceiros locais em vez de mirar apenas nos grandes distribuidores. Esse equilíbrio é superpositivo. O preço de tabela deles pode não ser o mais atrativo para o fluxo normal de compras na hotelaria, já que eles não têm o mesmo poder de barganha que os “bambambãs”, mas a proximidade geográfica é uma carta na manga para o caso de o principal fornecedor falhar.

Embora os gigantes da indústria tenham a escala a seu favor, eles costumam ter processos mais engessados, demorando dias para faturar e despachar uma carga. Por outro lado, os locais geralmente têm mais agilidade e conseguem resolver o problema em questão de horas. Dessa forma, o comprador pode até ter que pagar um pouco mais caro por um lote de emergência, mas, em compensação, ele não tem toda a operação prejudicada pela falta de insumos.

3. Olhos na demanda — sempre!

Investir em um calendário de compras alinhado à previsão de ocupação do hotel é o caminho para assegurar o estoque mínimo ideal, conforme as oscilações naturais da demanda. O diferencial de quem conduz os processos de compras na hotelaria é justamente a capacidade de cruzar o histórico de reservas com o cronograma de entregas.

Se a ocupação do hotel deve subir consideravelmente no próximo feriado ou temporada, o volume de insumos precisa ser avaliado com antecedência. Antecipar-se a esse boom reduz significativamente os riscos na cadeia de suprimentos, traz previsibilidade para o caixa e garante que a operação funcione sem sobressaltos.

O novo papel de Compras: da execução à análise de mercado

Um tablet deitado sobre uma superfície escura exibe um painel de análise de dados com gráficos de linhas, pizza e um mapa-múndi ao fundo, ideal para monitorar os riscos na cadeia de suprimentos. No centro da tela, destacam-se barras coloridas tridimensionais em tons de amarelo, vermelho, verde e azul.
Para ampliar a eficiência na gestão de compras na hotelaria, é essencial analisar a origem dos insumos. A dependência extrema de fornecedores de outros estados ou países pode favorecer o desabastecimento em hotéis | Crédito: Magnific

Driblar o desabastecimento em hotéis é possível. Contudo, é necessário que o comprador olhe para além da prateleira e dos contratos e compreenda o que está por trás da produção dos insumos, atentando-se para o fato de que determinados ingredientes e componentes vêm de outros estados ou dependem de portos internacionais.

Dá para ilustrar isso com acontecimentos recentes. Os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia e as instabilidades no Oriente Médio não estão restritos aos jornais; eles impactam diretamente o custo do trigo dos pães do buffet, encarecem os hortifrútis devido à alta dos fertilizantes e elevam o preço do petróleo, inflacionando o frete e as embalagens plásticas de amenities — ainda que estejamos em meio a uma tendência mundial que busca a redução do uso de plástico.

Fechar os olhos para a origem do que se compra é simplesmente arriscado demais, deixando o hotel “vendido” e incapaz de entregar a experiência prometida ao hóspede — além, é claro, de deixá-lo refém das compras emergenciais, que corroem a margem de lucro. Portanto, transformar o setor de Compras na hotelaria em um pilar estratégico de gerenciamento de riscos na cadeia de suprimentos é a decisão mais inteligente para proteger a operação e a rentabilidade do empreendimento.

A estrutura atual do meio de hospedagem em que você atua conseguiria absorver uma ruptura abrupta de insumos nas próximas 48 horas? Deixamos essa reflexão para você! Fique à vontade para escrever um comentário e compartilhar sua opinião.

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi