*Artigo assinado por Jaqueline Gil, CEO da Amplia Mundo. Ela viajou a Davos a convite do Basel Investor Forum*
“Quem não se senta à mesa provavelmente é o cardápio” foi uma das muitas aclamadas afirmações do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, há poucos dias, em Davos. Enquanto chefes de Estado e de governo, ministros e CEOs das maiores corporações globais se encontravam sob o tema “Espírito de Diálogo”, na Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial, preocupados principalmente com as rupturas e as incertezas na geopolítica, discussões aconteciam entre líderes convidados dos setores público e privado, cientistas e representantes da sociedade civil, em diversas arenas.
Neste ano, 3 mil profissionais de mais de 130 países priorizaram debates sobre investimentos em pessoas, novas formas de crescimento e prosperidade dentro dos limites planetários. O turismo não esteve alheio às discussões, e participei de seus principais debates. Nesse setor, apostas em oportunidades emergentes na economia da adaptação climática e da regeneração de ecossistemas, com riscos calibrados e caminhos a serem aprimorados, certamente farão a diferença para países, destinos e investidores, assim como definirão lucros e liderança, retirando os corajosos pioneiros do cardápio padronizado.

Estive em Davos pela primeira vez a convite do Basel Investor Forum, grupo suíço que conecta investidores globais a oportunidades de investimento a favor da saúde do planeta, em múltiplos setores. Participei de painéis e mesas-redondas científicas e econômicas e facilitei workshops sobre investimentos de impacto, da transição energética à economia regenerativa. A natureza e a biodiversidade estão, de forma crescente, no centro das análises, porque “sem natureza não há humanidade, não se fazem negócios, não há dividendos, não há investidores”, segundo André Hoffmann, do Fórum Econômico Mundial.

As temáticas econômicas aprofundaram-se, além da natureza e de maneira não excludente, na inteligência artificial a favor do bem-estar coletivo e na nova economia da regeneração dos ecossistemas. Como gerar e consolidar economias regenerativas lucrativas a favor do planeta e do nosso futuro nele foi a principal pergunta que investidores se faziam, em meio à neve dos Alpes suíços. Eles sabem, há longas décadas, que chegar primeiro e acertar nas apostas significa liderança econômica e poder de decisão à mesa, hoje e amanhã. Quem vai a Davos não quer ser cardápio – isso é certo.
Um debate coordenado pela Travalyst, organização sem fins lucrativos fundada pelo príncipe Harry, que reúne as maiores empresas de base tecnológica do mundo – como Google, Booking.com, Trip.com e Amadeus –, tratou do tema mais urgente no turismo atualmente: como crescer distribuindo fluxos e lucros, respeitando as pessoas e os ecossistemas, otimizando recursos e reduzindo as emissões de carbono. A resposta ainda está em construção, mas a percepção de que o Brasil deve sentar-se à mesa torna-se cada dia mais clara.

Ocupar a presidência da COP30 até novembro de 2026 nos torna responsáveis por liderar discussões, e há expectativas em relação a esse papel, ainda não plenamente realizadas. Vale destacar, também, nossas habilidades e históricos em múltiplos setores: a ampla capacidade de produção científica somada à valiosa biodiversidade – componentes da “fórmula” já conhecida na transformação da agricultura tropical (Embrapa, investimentos, natureza e empreendedores) – e as oportunidades para a geração de novas economias, como a dos combustíveis sustentáveis de aviação e a da regeneração, essenciais para o turismo do presente e do futuro.
Ao Brasil caberia liderar muitas discussões e propor encaminhamentos, inclusive em Davos, sobre a transição do turismo rumo à economia de baixo carbono. Sabe-se que, atualmente, as viagens são responsáveis por quase 9% das emissões totais de gases de efeito estufa e que não há sinais de redução sem programas intencionalmente desenhados para esse fim. As projeções indicam um robusto crescimento das viagens em todo o mundo e, paralelamente, sólidas oportunidades para a geração de uma nova economia de baixo carbono no turismo, até atingirmos a neutralidade dos gases.

O marco de 2050, quando as metas do Acordo de Paris determinam um mundo carbono neutro, indica que deveremos registrar mais de 4,7 bilhões de turistas internacionais — um volume preocupante, três vezes superior ao atual. Desde novembro de 2024, com a inserção do turismo na governança global do clima (COP29), crescer passou a ser o cardápio, e a despoluição sentou-se à mesa. O Brasil tem a oportunidade de consolidar-se como líder dessa transição, ocupando o assento da cabeceira: acelerar o combustível sustentável de aviação e as políticas para o turismo regenerativo pode ser o começo.
Sentar-se à mesa requer decisão, estratégia, investimento e contribuição – elementos que espero que ajustemos antes que nos consolidem como cardápio no turismo global pós-Acordo de Paris.










