No exterior, o consumo médio de água por hóspede e por noite é de mais de 300 litros — o equivalente a três banhos de 10 minutos de duração, a 25 escovações de dentes (com a torneira aberta) ou a uma lavagem de carro com balde e mangueira. E esse número pode ser ainda maior em hotéis e resorts com piscinas e spas, diferenciais que são símbolos de comodidade e muitas vezes até de luxo. Em nome do meio ambiente e da saúde financeira do negócio, a lógica diz que é preciso economizar água. Mas, e aqui todos os gestores concordam, não a qualquer custo: essa redução não pode comprometer o conforto dos visitantes.
O que fazer, então? Há algumas soluções possíveis para diminuir o consumo, e a maioria passa pela área de manutenção. As que trazem resultados mais expressivos costumam ser aquelas que envolvem o reuso da água dos chuveiros para as descargas e para a irrigação dos jardins, ações que não requerem potabilidade, embora ainda exijam tratamento adequado.
Apesar de a diferença na conta ser perceptível ao final do mês, os benefícios não surgem de uma hora para a outra: tirar essas iniciativas do papel requer a instalação de sistemas complexos, gastos volumosos em adaptação da infraestrutura e monitoramento contínuo. No entanto, quando o projeto é bem dimensionado e conversa com as boas práticas de manutenção hoteleira, o ganho ambiental justifica o investimento.
Além disso, a decisão traz mais duas vantagens importantes: há menos dependência da água que vem da rua, que é potável, e o empreendimento consegue se blindar de eventuais aumentos nas tarifas cobradas pela concessionária — um ponto especialmente interessante, ao considerar que as despesas com água podem representar até 10% dos custos fixos de um hotel.
Desmistificando um ponto: o que é água potável?
A água que sai das torneiras vem diretamente da estação de tratamento, o que significa que ela é potável. Entretanto, o caminho que ela percorre até chegar à população pode gerar contaminação, sobretudo se as caixas d’água não forem corretamente higienizadas e se houver microfissuras no encanamento, favorecendo a exposição a bactérias, protozoários e parasitas. É por isso que, mesmo nos lugares com bom saneamento básico, o mais seguro é consumir sempre água filtrada ou fervida.
Para os hotéis, economizar água não é somente uma questão de conscientização ambiental. Como os empreendimentos costumam ser abastecidos por uma única entrada de água, tudo lá dentro utiliza essa água “nobre” — inclusive ações banais, como regar as plantas e puxar a descarga, que não demandam esse nível de pureza.
O desperdício vem também na forma de dinheiro. Quanto mais água o hotel consome, mais caro fica o metro cúbico. Soma-se a isso o fato de que as tarifas sofrem o impacto das oscilações naturais do mercado, absorvendo altas no preço de insumos químicos (como o cloro) e da energia elétrica — afinal, bombear água da represa até o hotel exige eletricidade. Em épocas de seca, as tarifas ainda estão sujeitas a sobretaxas.
Sendo assim, pensar em maneiras de como reaproveitar a água é um exercício que faz bem ao caixa. Se o hotel compra 100% da água da concessionária, qualquer ajuste na tarifa representa um aumento na mesma proporção nos custos operacionais. Por outro lado, quando existe uma engenharia que valoriza cada gota, o impacto financeiro tende a ser significativamente menor. Percebe como a sustentabilidade na hotelaria extrapola o âmbito ambiental, amadurecendo a competitividade e o potencial de resiliência do negócio?
A engenharia por trás do banho: o ciclo da “água cinza”

Quando se fala em formas de reaproveitar a água, um termo sempre vem à tona: água cinza. Essa é a água que escorre pelo ralo quando tomamos banho, lavamos louça ou utilizamos a máquina de lavar em casa, por exemplo. Ela recebe esse nome não por ser “suja”, mas pela sua aparência levemente turva, já que não se trata de uma água pura.
No caso dos banhos, sua coloração é o resultado da mistura com sabão, shampoos, condicionadores e resíduos corporais. Diferente da chamada água negra — que vem dos vasos sanitários e carrega matéria orgânica pesada e alta carga de contaminantes, sendo mais difícil de “reciclar” —, a água cinza é uma candidata perfeita para o reuso.
Mas como transformar o “descarte” do chuveiro em um recurso valioso para o jardim? É aí que entra em cena a complexidade da manutenção, uma vez que o processo como um todo é uma verdadeira jornada de “reabilitação” da água.
De modo geral, pode-se dizer que a água precisa passar por quatro etapas, conforme explicamos abaixo.
1. Captação separada
É fundamental ter uma tubulação exclusiva para coletar a água dos chuveiros, assegurando que ela jamais se misture com a rede de esgoto comum. Porém, isso só é possível mediante ajustes na infraestrutura física, o que está diretamente atrelado a reformas intensas e a um baita planejamento.
É por esse motivo que tantos hotéis optam por fazer essa transição de forma escalonada ou durante reformas de alas específicas — algo com o qual o projeto “Retrofit tecnológico de hotéis” consegue ajudar, inclusive.
2. Pré-tratamento e filtração
Uma vez captada, a água cinza não pode ir direto para as plantas e nem para os sanitários. Ela deve passar por um sistema de filtragem básica (como peneiras, sistemas de gradeamento ou caixas de retenção) para remover fios de cabelo, fiapos, resíduos de sabão e outros materiais, a fim de aumentar a eficiência do tratamento.
3. Tratamento com processos químicos e biológicos
Esta é a fase mais crítica. Isso porque não basta que a água esteja visualmente limpa: ela precisa estar segura biologicamente. Em termos simples, o objetivo do tratamento é eliminar restos de matéria orgânica, como pele e gordura, e submeter a água a um processo rigoroso de desinfecção, certificando que nem bactéria, nem qualquer outro patógeno esteja presente — e, de quebra, extinguindo quaisquer odores.
Se houver qualquer falha nesta etapa, o mau cheiro, por exemplo, reaparecerá, daí a necessidade de acompanhamento constante (checagens químicas básicas que podem ser feitas in loco pela própria equipe).
4. Reuso
Por meio de uma rede de redistribuição, a manutenção a direciona para as caixas de descarga dos apartamentos e para o sistema de irrigação dos jardins. É o ciclo se fechando: a água que lavou o hóspede agora rega o gramado que ele admira da janela.
Vale salientar que essa é a versão “resumida” das etapas que compõem o tratamento que permite reaproveitar a água de maneira segura. Para informações mais técnicas e detalhadas, deixamos aqui como dica de leitura o conteúdo preparado pela empresa Avanzi Química: Tratamento de água de reuso: como os insumos químicos contribuem para a preservação hídrica.
Como a chuva pode ajudar a economizar água
Mais do que reutilizar a água que vem dos chuveiros, há outra maneira de apostar em sustentabilidade na hotelaria: com a captação da água da chuva. Ao contrário da água potável, não é preciso pagar nenhuma taxa por ela — e, com o tratamento apropriado, ela se torna igualmente boa para o uso em jardins e sanitários.
A princípio, o conceito parece relativamente simples: instalar calhas nos telhados. Contudo, o volume coletado precisa ser direcionado para algum lugar, geralmente cisternas ou um tipo diferente de reservatório, o que exige espaço físico e uma logística muito bem definida para o armazenamento. Em estruturas já consolidadas, acomodar cisternas volumosas em um local estratégico pode ser um grande desafio (literalmente!).
É necessário considerar que nem toda água pode ir para o reservatório; caso contrário, a cisterna receberá também poeira, poluição, folhas, dejetos de pássaros e outras sujeiras, contaminando o conteúdo. A solução é implantar um sistema que desvie e descarte as “primeiras águas”, além de caprichar na manutenção, visto que água parada tem cheiro ruim e constrói um ambiente favorável à proliferação de mosquitos e algas.
Ao mesmo tempo, um dos pontos negativos é a sazonalidade. Ou seja, em períodos de estiagem, esse é um recurso com o qual não dá para contar. Diante disso, pode-se dizer que uma gestão de manutenção eficiente enxerga a chuva como uma aliada importante para economizar água, mas não como uma substituta ao reaproveitamento da água cinza.
Para alcançar a excelência e a eficiência: 5 lembretes fundamentais

- Sinalize de forma discreta e elegante nos banheiros que o hotel utiliza água de reuso para as descargas. Isso evita reclamações sobre possíveis variações na coloração da água e transforma uma escolha de engenharia em um diferencial de sustentabilidade percebido pelo hóspede;
- O custo para coletar, tratar e reaproveitar a água é alto, ainda mais em hotéis que já têm toda a sua estrutura construída e precisam recorrer a reformas de grande impacto para fazer essas adaptações. O trunfo não se resume ao “o investimento se paga com o tempo”, mas na redução drástica do consumo de água potável, protegendo o hotel da cobrança de tarifas escalonadas por parte da concessionária;
- Assim como a água da chuva não está permanentemente disponível, a viabilidade financeira e técnica do sistema de reuso da água cinza está relacionada à taxa de ocupação do hotel. Como o recurso depende dos banhos dos hóspedes, o volume de água gerado para descargas e irrigação nos jardins varia conforme o movimento do empreendimento;
- A segurança biológica e a eliminação de odores dependem de um controle rigoroso de parâmetros técnicos. A própria equipe de manutenção pode se responsabilizar por esse monitoramento diário — como a medição dos níveis de cloração —, desde que receba o treinamento adequado. Essa qualificação é o que garante que o sistema opere com precisão, mantendo a água reciclada sempre segura para o uso;
- Mais do que uma escolha ética, uma gestão hídrica eficiente coloca o hotel em conformidade com normas de responsabilidade ambiental e licenciamentos cada vez mais rígidos. Adotar medidas que permitam reaproveitar a água não apenas atende a requisitos legais, como ainda fortalece a imagem da marca perante investidores e hóspedes, transformando as boas práticas de manutenção hoteleira em aliadas estratégicas do ESG.
Agora, gostaríamos de saber a sua opinião: você percebe que há um interesse genuíno da hotelaria em economizar água ou ainda estamos longe do ideal? Você acredita que os gastos com adaptações na infraestrutura valem a pena ou há ações menores e mais simples que oferecem bons resultados em termos de sustentabilidade ambiental? Deixe o seu comentário!










