Copos cheios, mentes limpas: por que estamos na era de ouro das bebidas sem álcool

Sucos? Refrigerantes? Chás? Que nada! Hoje, a galera que não consome álcool pode brindar em grande estilo com os chamados mocktails. O termo pode soar estranho a princípio, fazendo você pensar em “cocktail”. E, na verdade, a intenção é essa mesmo: “mock”, em inglês, significa “imitação”; “tail” é uma herança de “cocktail” (“coquetel”). Ou seja, estamos falando de algo que parece um coquetel, mas, na realidade, se enquadra na categoria “bebidas sem álcool”.

Por que estamos trazendo isso à tona agora? A resposta é simples: porque o comportamento do consumidor mudou e, com ele, mudaram também as preferências relativas à área de Alimentos & Bebidas. A redução no consumo de bebidas alcoólicas é uma tendência que vem sendo observada há algum tempo. Em 2023, 55% dos adultos que participaram de uma pesquisa conduzida pela Ipsos-Ipec no Brasil afirmaram não beber. Em 2025 esse número saltou para 64%. Esses dados foram coletados a pedido do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA).

Esse cenário se torna ainda mais interessante quando paramos para analisar a faixa etária: são os millennials e a geração Z que estão puxando essa nova realidade. O estudo mostrou que, em jovens de 18 a 24 anos, a abstinência passou de 46% para 64%. Já o grupo cuja idade varia entre 25 e 34 anos também surpreendeu: o índice subiu de 47% para 61%. Os motivos para isso? Bem, acredita-se que essa decisão esteja atrelada à valorização da saúde física e mental — uma das “bandeiras” carregadas principalmente pela geração Z — e pela conscientização acentuada acerca dos efeitos nocivos do álcool.

O que a popularização dos mocktails significa para a hotelaria?

Essa é uma pergunta importante a se fazer. É claro que essa mudança nos hábitos de consumo vai impactar — e talvez já esteja impactando — os negócios. Fingir que nada está acontecendo ou ignorar as novas tendências na hotelaria é, no mínimo, um erro estratégico gigantesco.

O hóspede que opta por bebidas sem álcool provavelmente não faz questão de ser o cliente do suco de laranja ou do refrigerante morno enquanto o resto da mesa tem à sua frente taças de cristal e drinks elaborados. Ele não quer, e nem precisa, ser excluído do “ritual” do bar. Portanto, o desafio para os hotéis está em transformar essa demanda por bem-estar em uma entrega de alto valor agregado, na qual o “não beber” se torne uma experiência tão sofisticada quanto qualquer outra oferecida pelo empreendimento.

Sob essa ótica, a oportunidade é perfeita para investir na criação de produtos que elevem o ticket médio e fidelizem um público que, até então, tinha opções bastante limitadas quanto ao “B” de A&B.

Anote aí: como montar uma carta de drinks diferenciada

Três mocktails sofisticados servidos em taças de cristal, demonstrando um visual idêntico ao de coquetéis clássicos. À esquerda, uma bebida azul vibrante com guarnição de limão; ao centro, um drink em degradê tropical de amarelo e laranja com frutas frescas; à direita, uma opção refrescante em tons de vermelho com fatias de morango. A composição, sobre fundo preto e superfície reflexiva, destaca o uso de técnicas de mixologia e apresentações artísticas para o público que não consome álcool.
O ideal é que os mocktails sejam tão atrativos — em gosto e em visual — quanto os coquetéis tradicionais | Crédito: Magnific

Para começo de conversa, a execução precisa ser impecável, até um pouco artística. Os mocktails não têm nada a ver com aquela ideia de misturar dois ou três sabores de sucos, colocar um canudo colorido e correr para o abraço. A verdadeira magia acontece quando a elaboração das bebidas sem álcool segue o mesmo rigor de um coquetel clássico — quem nunca ouviu falar no Dry Martini, no Manhattan ou no daiquiri, alguns dos drinks mais famosos do mundo?

Isso envolve o que chamamos de mixologia, que nada mais é do que a arte de combinar ingredientes para criar sabores equilibrados, harmônicos e — por que não? — aromáticos. Em geral, esses ingredientes são bem variados, contemplando frutas, folhas de manjericão, xaropes e água com gás, por exemplo. Caso o mixologista esteja preparando bebidas com algum teor alcoólico, a composição do drink também exige quantidades específicas de álcool. Há centenas de receitas disponíveis, e dominar essas técnicas é o primeiro passo para quem busca entender como montar uma carta de drinks que fuja do óbvio e que seja genuinamente inclusiva.

O segredo é usar elementos que tragam texturas e camadas, como os xaropes feitos na própria cozinha do hotel ou infusões de ervas e especiarias. Dá até para arriscar o uso de kombuchas, uma bebida milenar e agridoce, à base de chá preto ou verde, originada na China, que traz uma acidez refrescante e muito elegante para o copo. De quebra, a kombucha vem com uma série de benefícios para o organismo: contém vitaminas do complexo B, contribui para o equilíbrio da flora intestinal e é considerada uma bebida probiótica viva por apresentar em sua composição uma cultura de bactérias e leveduras.

A apresentação é outro ponto em que os mocktails ganham força. O visual deve ser um convite ao primeiro gole. O uso de taças adequadas para cada estilo, gelos grandes e transparentes e guarnições que perfumam o copo — como um ramo de alecrim levemente queimado ou uma casca de limão siciliano — transformam a bebida em uma obra de arte. A percepção de valor nasce desse capricho nos detalhes, um trabalho minucioso que eleva o padrão do serviço e impacta diretamente (para melhor!) a experiência do hóspede.

Como transformar as bebidas sem álcool em lucro?

O faturamento de um bar não depende exclusivamente da venda de álcool, embora os destilados premium costumem, sim, dar um baita empurrão em direção à margem de lucro. Os mocktails se mostram um negócio lucrativo porque os insumos básicos para o preparo tendem a ser mais baratos. Mas atenção: isso não quer dizer que você deva priorizar ingredientes de baixa qualidade, viu?

Além disso, ter opções de bebidas sem álcool no menu incentiva o consumo em horários alternativos — como durante almoços corporativos e tardes em família à beira da piscina — e por parte de hóspedes que estejam só de passagem pelo lobby. É uma forma inteligente de manter o bar movimentado e o caixa girando ao longo de todo o dia.

Só que, para que os números apareçam, é fundamental que a gestão promova o treinamento necessário. Não adianta investir em como montar uma carta de drinks e contratar o melhor mixologista do país se quem atende o público não sabe vender a ideia para o cliente. A equipe do salão deve conhecer a história por trás de cada drink, saber explicar o que é a kombucha (só para citar um exemplo) e sugerir harmonizações com o cardápio de petiscos. Esse atendimento consultivo valoriza o produto, trabalha em prol da rentabilidade do restaurante ou bar e mostra que o hotel está preparado para tirar dúvidas e para atender com excelência.

Novos tempos, novas formas de brindar

Uma jovem com unhas pintadas de vermelho segura uma taça de mocktail em tons de verde cítrico com espuma densa, estendendo-a em um gesto de brinde. A imagem captura a essência da nova tendência de bebidas sem álcool, na qual a apresentação moderna e o ambiente sofisticado do bar elevam a experiência de consumo para além das opções tradicionais.
Existe uma tendência atual de redução do consumo de bebidas alcoólicas. Por isso, a recomendação é que os empreendimentos hoteleiros avaliem as melhores maneiras de como criar uma carta de drinks inclusiva e invistam em insumos de qualidade | Crédito: Magnific

No momento, os mocktails são uma das tendências na hotelaria. Se isso veio para ficar, é difícil dizer. A gente acredita que sim, especialmente porque essa mudança sinaliza uma preocupação maior com a saúde e o bem-estar. A ideia aqui não é erradicar opções alcoólicas do cardápio; é mostrar que pode ser muito vantajoso para o negócio olhar para as necessidades desse outro lado do público.

Acompanhar as nuances do comportamento do consumidor não se resume a aderir às melhores práticas. É uma forma de demonstrar respeito a cada uma das pessoas que escolhe o empreendimento para se hospedar ou realizar um evento. A hospitalidade moderna se faz com inclusão e capacidade de adaptação, o que significa que o brinde deve ser para todos.

E no seu empreendimento, como esse movimento tem sido percebido? Você já notou esse aumento na procura por bebidas sem álcool ou ainda não? Há resistência em incluir mocktails ao cardápio? Compartilhe sua experiência com a gente nos comentários!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi