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5 regras essenciais para profissionalizar a organização do estoque e o controle de produtos químicos em hotéis

Por trás dos quartos corretamente higienizados e das áreas comuns impecáveis dos hotéis estão dois aspectos de importância estratégica: a organização do estoque e o controle de produtos químicos. Se Compras traz os insumos para dentro de casa e Governança e Manutenção se encarregam de utilizá-los no dia a dia, cabe aos profissionais do almoxarifado lidar com outra parte fundamental desse processo: a segurança que deve permear o armazenamento desses itens.

Essa não é uma atividade que se limita a distribuir frascos em prateleiras e fazer contagens regulares. Todos os produtos devem estar identificados, alguns não podem ficar próximos aos outros devido à sua incompatibilidade química e há casos que pedem por lugares ventilados, por exemplo. Negligenciar esses detalhes nunca é uma boa ideia. Isso enfraquece a segurança jurídica do empreendimento, abrindo brechas para fiscalizações severas e multas elevadas, e, acima de tudo, coloca em risco algo que é inegociável: a integridade física dos colaboradores.

Apresentaremos a seguir algumas regras práticas que vão transformar completamente a organização do estoque, assegurando que o armazenamento de itens que podem ser considerados perigosos seja feito da maneira mais eficiente e cuidadosa possível.

Fichas de segurança: por que elas são tão necessárias para a organização do estoque?

Existe uma sigla que todo mundo que atua com controle de produtos químicos deve conhecer: FISPQ. Essa é a sigla para Ficha de Informações de Segurança de Produtos Químicos, um documento que, desde 2023, teve sua nomenclatura alterada para Ficha de Dados de Segurança (FDS).

Esse documento técnico não é mera burocracia ou um papel qualquer que passa anos sem ser consultado pela equipe. Ele funciona como um guia de segurança, apresentando informações cruciais de produtos cujas substâncias químicas não apenas são nocivas à saúde, como ainda podem desencadear ocorrências gravíssimas. Entre outras coisas, constam, na FDS, dados como o nome do produto, sua classificação de risco (ou seja, se ele é inflamável, tóxico ou corrosivo), orientações em caso de acidentes e instruções para transporte, limpeza e descarte.

As fichas de segurança são tão fundamentais que servem como material de apoio para a realização de treinamentos periódicos, ajudando a capacitar os colaboradores sobre o contato seguro com essas substâncias e enfatizando as medidas preventivas necessárias.

Para ilustrar com precisão a riqueza de dados que a FDS traz, compartilhamos abaixo uma tabela retirada de um conteúdo da empresa Produttivo, que elenca o que deve ser observado com atenção na ficha antes de utilizar ou manusear um produto químico.

Seção da FDS O que verificar
Identificação Nome do produto, fabricante/importador e contatos de emergência.
Identificação de perigos Classificação de risco (inflamável, tóxico, corrosivo) e pictogramas GHS.
Medidas de primeiros-socorros Procedimentos em caso de inalação, ingestão, contato com pele e olhos.
Medidas contra incêndio Agentes extintores recomendados e riscos de combustão.
Medidas em caso de vazamento Equipamentos de contenção e formas seguras de limpeza.
Controle de exposição EPIs obrigatórios, limites de exposição ocupacional e ventilação necessária.
Propriedades físico-químicas Estado físico, ponto de ebulição, inflamabilidade e solubilidade.
Considerações sobre descarte Instruções para eliminar resíduos sem impactar o meio ambiente.
Informações sobre transporte Classificação ONU, classe de risco e cuidados no transporte.

Crédito: Reprodução/Produttivo

Não se preocupe: as fichas de segurança não devem ser preenchidas pelos profissionais que fazem a organização do estoque. Elas são uma obrigação dos fabricantes ou importadores, devendo ser disponibilizadas gratuitamente e em português para todos que utilizam ou têm contato com a substância — e isso vale para cada uma das etapas pelas quais o produto passa, do transporte ao consumidor final.

Nem todos os insumos exigem uma FDS. Porém, existe um padrão adotado no Brasil e no mundo — o Sistema Globalmente Harmonizado de Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS, na sigla em inglês) — que estabelece alguns critérios para classificar as substâncias com relação aos seus perigos físicos, à saúde e ao meio ambiente. Segundo o material divulgado pela Produttivo, a FDS é obrigatória para os seguintes produtos químicos:

  • explosivos;
  • gases, líquidos e sólidos inflamáveis;
  • aerossóis inflamáveis;
  • gases comburentes (oxidantes);
  • gases sob pressão;
  • substâncias e misturas autorreativas;
  • líquidos e sólidos pirofóricos;
  • substâncias e misturas suscetíveis ao autoaquecimento;
  • substâncias e misturas que, em contato com a água, liberam gases inflamáveis;
  • líquidos e sólidos comburentes;
  • peróxidos orgânicos;
  • corrosivos para metais.

A princípio, essa lista pode assustar. Como saber se esse tipo de produto está presente na rotina de um meio de hospedagem? É por isso que vamos desmistificar esses termos a seguir e focar em como essas substâncias são utilizadas na prática.

Quais produtos químicos um hotel costuma usar?

Enquanto substâncias explosivas, pirofóricas ou autorreativas são praticamente inexistentes na operação hoteleira tradicional, itens cotidianos, como aerossóis, botijões de gás, pastilhas de buffet e cloro de piscina, representam riscos químicos severos se armazenados e manuseados de forma inadequada.

Aqui vão alguns exemplos:

  • Lavanderia: toalhas e panos contaminados com óleos de massagem (spa) ou óleos de cozinha que passam pela lavanderia podem sofrer autoaquecimento e entrar em combustão espontânea se forem empilhados ainda quentes ou mal lavados. As peças precisam esfriar completamente antes de serem dobradas ou guardadas;
  • Piscina: o cloro granulado (hipoclorito de cálcio), bastante utilizado para desinfecção, limpeza e manutenção de piscinas, é um poderoso comburente que pode causar explosões ou incêndios se entrar em contato com materiais inflamáveis (como combustíveis e solventes da manutenção). Já o ácido muriático, indicado para reduzir o pH e a alcalinidade da piscina, pode ser altamente perigoso se misturado com o cloro, liberando um gás tóxico que se assemelha a uma arma química;
  • A&B: é natural que o setor estoque cilindros de CO2 sob pressão para chopeiras. Se mantidos em depósitos abafados ou próximos a fontes de calor, esses cilindros podem sofrer um aumento drástico de pressão interna e explodir. Além disso, quaisquer vazamentos desse gás ­— que é incolor e inodoro, vale dizer — representam risco de asfixia em ambientes fechados. Já as latinhas de combustível em gel, que mantêm os buffets e réchauds quentinhos no restaurante, são inflamáveis: caso sejam armazenadas incorretamente perto de caixas de papelão e materiais descartáveis, qualquer faísca de eletricidade estática pode desencadear um incêndio de rápida propagação.

A fim de facilitar a visualização, confira, abaixo, uma tabela que sinaliza claramente o que se aplica à hotelaria e quais produtos químicos não são tão comuns assim no setor.

Classe de perigo Comum em hotéis? Exemplos de uso/aplicação prática no hotel
Explosivos ❌ Não Praticamente inexistentes no inventário padrão. Fogos de artifício para eventos são operados por empresas terceiras homologadas.
Gases, líquidos e sólidos inflamáveis Sim Líquidos: álcool em gel, solventes de pintura, combustíveis para geradores (diesel/gasolina). Sólidos: pastilhas de álcool sólido (como os Sternos) para buffets e réchauds.
Aerossóis inflamáveis Sim Purificadores de ar, inseticidas, lubrificantes (como WD-40) e tintas spray na manutenção.
Gases comburentes (oxidantes) ⚠️ Raro Cilindros de oxigênio medicinal para primeiros-socorros ou áreas de spa (em casos muito específicos).
Gases sob pressão Sim Cilindros de CO2 para chopeiras/refrigerantes, GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) para cozinhas e fluidos refrigerantes de ar-condicionado
Substâncias autorreativas ❌ Não Típicas de processos industriais pesados. Inexistentes em hotéis.
Líquidos e sólidos pirofóricos ❌ Não Substâncias que inflamam espontaneamente em contato com o ar. Inexistentes em hotéis.
Substâncias suscetíveis ao autoaquecimento Sim Altíssimo risco na hotelaria: panos e toalhas de lavanderia contaminados com óleos de massagem (spa) ou gorduras de cozinha. Se empilhados quentes após a secagem, sofrem oxidação e podem entrar em combustão espontânea.
Substâncias que em contato com a água liberam gases inflamáveis ❌ Não Inexistentes em hotéis de uso padrão.
Líquidos e sólidos comburentes Sim Produtos de tratamento de piscina: cloro granulado (hipoclorito de cálcio) e peróxidos líquidos.
Peróxidos orgânicos ⚠️ Raro Presentes apenas em alguns desinfetantes de nível hospitalar (como o ácido peracético), mas incomuns no dia a dia.
Corrosivos para metais Sim Desentupidores de pia (ácidos fortes), limpadores de forno (hidróxido de sódio), desincrustantes e ácido muriático para piscinas.

Crédito: Portal do Hoteleiro (tabela produzida com o auxílio de inteligência artificial)

Regras gerais para o controle de produtos químicos

1. Segmentação

Fileiras simétricas de embalagens de produtos de limpeza organizadas em uma prateleira. Em primeiro plano, frascos transparentes com líquido verde e tampas brancas aparecem alinhados e, ao fundo, frascos plásticos inteiramente brancos estão separados, ilustrando a necessidade de classificação dos produtos em categorias para a organização do estoque.
Em nome da segurança do trabalho, os insumos precisam ser classificados em categorias antes de serem dispostos no estoque, evitando a proximidade com produtos quimicamente incompatíveis | Crédito: Pexels

Para uma organização do estoque que realmente funcione, é vital classificar os produtos químicos em categorias, mesmo porque é essa classificação que vai mostrar quais itens podem ficar lado a lado e quais devem manter uma distância segura. Conforme já mencionado, ácidos (como o ácido muriático) e desinfetantes clorados (como o cloro granulado) não devem ter qualquer tipo de contato para evitar reações que liberem gases tóxicos.

De acordo com a Central de Reagentes e Resíduos Químicos, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, uma boa sugestão de segmentação é: líquidos inflamáveis (ou combustíveis) e ácidos orgânicos; sólidos inflamáveis; ácidos minerais; corrosivos; oxidantes; e gases comprimidos.

Um dos maiores erros envolvendo o controle de produtos químicos é organizá-los em ordem alfabética. Em prol da segurança do trabalho, essa metodologia pode ser aplicada somente dentro de cada categoria, nunca de maneira geral, misturando itens incompatíveis. Além disso, defensivos químicos e raticidas (que equivalem a venenos, por terem como intuito o controle de pragas) precisam, necessariamente, ser armazenados em um local dedicado e trancado, altamente restritivo.

2. Adequação das prateleiras e das embalagens

O armazenamento de itens de alta periculosidade não pode ser feito sobre prateleiras de madeira ou que estejam forradas com papel ou papelão, uma vez que sua origem orgânica os deixa amplamente suscetíveis ao fogo. O ideal é que os produtos sejam acomodados em prateleiras com bordas fixas e de aço revestido com pintura epóxi ou polietileno de alta densidade — materiais não combustíveis e resistentes à corrosão e a reações químicas.

Também é indispensável o uso de bandejas de contenção secundária sob os frascos, já que elas garantem que o líquido fique retido na própria bandeja em caso de rachadura ou vazamento. Ao mesmo tempo, os frascos não devem ficar posicionados acima do nível dos olhos e nem nas prateleiras superiores, a fim de evitar que um ocasional escorrimento reaja com as substâncias estocadas logo abaixo.

Inclusive, é por conta dessa facilidade de contaminação que é preciso ter cautela com as embalagens: recomenda-se o uso de recipientes inquebráveis ou com contenção dupla, minimizando potenciais estragos motivados por quedas ou outros impactos.

3. Ventilação e temperatura

É primordial que o local de armazenamento esteja sob ventilação constante e em temperaturas controladas — o limite máximo de segurança é de 35°C —, certificando que os insumos fiquem longe de fontes de calor direto, como luz solar, caldeiras, aquecedores ou fiação exposta.

A conformidade legal e a prevenção de sinistros exigem o controle rigoroso da umidade, a garantia de taxas de ventilação ativa para dispersar gases e o distanciamento seguro de qualquer fonte de ignição. Locais abafados e quentes aceleram a decomposição de oxidantes (como o cloro), o que gera o risco de autoaquecimento e fogo espontâneo. Esse calor também eleva a pressão interna dos cilindros de gás e aumenta a volatilidade de líquidos inflamáveis.

4. Acesso fácil às fichas de segurança

Uma das regras de ouro envolvendo o controle de produtos químicos é assegurar que todos os colaboradores que lidam com esse tipo de insumo (ou que de algum modo estejam expostos a ele), independentemente de setor ou cargo, saibam como e onde encontrar a Ficha de Dados de Segurança.

Isso significa que a FDS deve estar à disposição no ambiente de trabalho, seja em pastas físicas ou em arquivos digitais. Além disso, dado o seu caráter informativo e sua relevância em emergências, ela deve, obrigatoriamente, estar anexa às mercadorias já desde a transportadora.

5. Controle de validade

Close-up de um profissional de limpeza empurrando carrinho com insumos e equipamentos de higienização. A cena representa a importância da organização do estoque na hotelaria, essencial para monitorar datas de vencimento e proteger a integridade física dos trabalhadores.
Atenção à data de validade: o uso de produtos de limpeza vencidos costuma levar à superdosagem, o que pode causar riscos sérios à infraestrutura e à saúde dos profissionais | Crédito: Magnific

Definitivamente não tem como falar em gestão profissional do estoque sem mencionar o controle de validade. Não se trata somente de driblar o desperdício de insumos: manter um rastreamento rigoroso das datas de vencimento é uma medida mandatória para fugir de multas em fiscalizações trabalhistas e sanitárias, prevenir acidentes graves — afinal, um armazenamento excessivamente longo pode propiciar a deterioração das embalagens, gerando um gotejamento capaz de formar um “coquetel” dos mais perigosos no chão do estoque — e evitar a perda de eficácia dos produtos.

Muitas vezes, a equipe de limpeza percebe que a validade expirou e se vê impelida a cometer um erro clássico: a superdosagem. Tentar compensar a perda de “força” de um produto vencido adicionando mais quantidade não acelera a desinfecção; na verdade, essa prática danifica equipamentos e superfícies por corrosão, bem como favorece a liberação de vapores químicos nocivos que irritam gravemente as vias respiratórias dos colaboradores.

Para fechar este artigo com dicas para a organização do estoque, gostaríamos de contar com a sua participação: quão avançado está, por aí, o controle de produtos químicos? Você já testemunhou alguma situação que poderia ter sido evitada caso isso tivesse sido levado mais a sério? Em qual momento as fichas de segurança se mostram mais úteis? Deixe um comentário com os seus insights!

Bruna Dinardi
Author: Bruna Dinardi